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Manuel Vicente Faria

 

O animador cultural

que marcou o século XX

em Alfândega da Fé

 

PARTE III

 

Termino hoje o apontamento sobre o Dr. Manuel Vicente Faria, editando as letras das músicas que ele escreveu e musicou.

Uma vez que as melodias estão gravadas, numa próxima oportunidade (quando arranjar alguém que me faça esse trabalho…) acrescentarei os dados musicais que permitirão que este património não se perca.

 

Tanto quanto pude apurar, e nisso a ajuda de Avelino Jaldim foi preciosa, só faltará aqui um texto que o Dr. Faria escreveu (e musicou) sobre Sambade, a propósito da destruição dos sinos da Igreja devido à queda de uma faísca.

No Carnaval de 2003 houve uma primeira tentativa de recordar as danças e o ambiente da época do Dr. Faria, mas seria em 2009, também no Carnaval, que um grupo de mulheres se empenhou a ensaiar novamente quase todas as músicas às quais se acrescentaram alguns passos de dança que certamente ficaram muito aquém daquilo que foi originalmente apresentado. De qualquer forma, as músicas, as danças e os carros a simbolizar os bairros da Vila antiga constituíram possivelmente a única homenagem que já se prestou ao Dr. Faria, mas isso foi suficiente para juntar centenas de pessoas que assistiram com agrado à iniciativa e cumpriu-se, dessa forma, o desejo dos versos da bonita canção Despedida:

“Deus permita que não se esqueçam de mim

e que me possam de vez em quando lembrar (…)”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8-LETRAS DAS MÚSICAS DO DR. FARIA

 

 

CASTELO

 

I

Sou o solar da nossa terra abençoada

o berço heróico dos lendários cavaleiros

que pela fé e pela honra mais sagrada

um dia ergueram seus montantes de guerreiros.

 

II

E recordando nobre exemplo desde então

ouvindo do clarim o som de unir fileiras

nos lábios um sorriso aberto ao coração

aqui vão do castelo as pedras derradeiras.

 

III

Já não tenho ameias

nem tenho guaritas

as torres caíram

vieram desditas.

 

IV

Mas essa alma antiga

que o mundo assombrou

perdura intangível

e a alma ficou.

 

V

Se fizeres o bem

é nobre ideal

cá vamos também

dar ao hospital.

 

VI

E o nobre castelo

embora velhinho

sente orgulho em dar

também um poucochinho.

 

PORTELA (I)

 

I

Portela garrida

trago em mim a vida

mais bela e mais sã

na minha alma pura

não há noite escura

é sempre manhã.

 

II

De sedas não visto

por isso resisto

do tempo aos rigores

nem jóias conheço

mas sei dar apreço

às mais raras flores.

 

III

Baila contente, ó Portela,

não tenhas medo a ninguém

quem disser que não és bela

não tem gosto ou não vê bem.

 

IV

Como d´aurora estival

as fulgurantes centelhas

são as alegres cantigas

das nossas bocas vermelhas.

 

PORTELA (II)

 

I

Vem já de tempos passados

a fama de que a Portela

é alegre e dançarina

fagueira e ladina

sem nunca ser bela

 

II

Mas nem só cantos e risos

aqui se vêem passar

também sabe fazer bem

sem olhar a quem

hoje o vem provar.

 

III

E à noite depois da ceia

faz-se na meia, doba-se o linho,

no largo de fato novo

junta-se o povo nesse cantinho

 

IV

E ao som do realejo, troca-se um beijo

dança-se nela,

nas eiras, os namorados, apaixonados

eis a Portela.

 

ADRO

 

I

Cá vai o Adro também na festa

é o mais alegre ninguém contesta

todo florido como um rosal

cá vai o bairro do hospital.

 

II

Não houve ainda obra como esta

festa tão linda, tão linda festa

é o mais alegre, ninguém contesta

cá vai o Adro, o rei da festa.

 

III

E dar aos pobres tudo o que consola

por entre risos e canções famosas

fazem esquecer o amargor da esmola

e fica-lhe a saber a pão de rosas.

 

IV

Novos do Adro como a luz do dia

em nossas almas juvenis canções

fazem esquecer o amargor da esmola

que nos aquece os nossos corações.

 

 

BAIRRO DO CENTRO

 

I

Somos do bairro do Centro

desta Vila o coração

que cantando o hino à vida

é a mais sublime oração.

 

II

Rapazes e raparigas

haja alegria pr’a longe o mal

canta e ria quem trabalha

sem desalento p’ró hospital.

 

III

Ó raparigas vossas magias

são um rebol

raras magias de estivais dias

sem pôr do sol.

 

IV

Rapazes todos folgar a rodos

hoje é que vale

só o bem desperta

a linda festa do hospital.

 

 

HINO DE ALFÂNDEGA DA FÉ

 

I

Nobre vila aos pergaminhos

da tua excelsa nobreza

podes juntar-te orgulhosa

tendo do bem a riqueza.

 

II

Todos unidos avante

vê-de se há mais belo ideal

se cantar o pranto a quem chora

é banir da terra o mal.

 

III

Ó que rosários infindáveis

de Avé-Marias, Pai Nossos

nos olhos dos pobrezinhos

beijando de longe os nossos.

 

IV

Viva a jornada do bem

que em prol da pobreza é

viva a nossa linda festa

Viva Alfândega da Fé.

 

 

HINO DO CARNAVAL

 

I

É Carnaval, raparigas brincai

e vós com elas, vá rapazes, rodai.

Enquanto é tempo, é que é aproveitar

cantai, cantai, bailai, bailai, até fartar.

 

II

Nós queremos ter muita alegria

em todas as casas folgar

e que haja por nós simpatia

nós só queremos reinar.

 

III

Venham todos ver nosso rancho

ao vê-lo qualquer um se espanta

a vida é sangue que passa

venham ver a graça

da gente que canta.

 

REFRÃO

 

Estalam foguetes

brilham serpentinas

falam de amores

“pierrots” e columbinas.

 

DESPEDIDA

 

I

Esta vai por despedida

por despedida esta vai

que todos sejam felizes

esqueçam o que lá vai.

 

II

Nunca tive a intenção

de ofender com actos meus

por isso do coração

Adeus, Adeus!

 

III

Não é a minha esta terra que eu bem digo

quero-lhe tanto e não sei por que razão

ai as saudades que eu levarei comigo

mas vou-me embora e cá fica o coração.

 

IV

Deus permita que não se esqueçam de mim

e que me possam de vez em quando lembrar

que eu peço sempre para vós amigos meus

todas as bênçãos que o Céu nos pode dar.

 

V

Cantei convosco bailei

fomos sempre camaradas

o que sabia vos dei

com as mãos limpas lavadas.

 

VI

Vou-me embora mas soltando

este amargo grito aos Céus.

Creio bem que estão escutando

Adeus, Adeus!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agradecimento.

Agradeço às seguintes pessoas que me forneceram elementos importantes para a organização deste trabalho: Armando Almeida, Avelino Jaldim, Conceição Trigo, Carmo Trigo, Horácio Pires, Jeremias Ferreira (já falecido) e Manuel Cordeiro.

BIBLIOGRAFIA

a)Fontes impressas

REBOREDO, João Miguel Lagoinha (2003); Um Cancioneiro em Estudo, Gailivro, Vila Nova de Gaia.

SILVA, Lourdes da Graça da Cunha e; SILVA, Raul Cunha e (2003); Gentes sem terra, Terra sem gente, edição da Câmara Municipal de Alfândega da Fé.

b)Publicações

Artigos assinados pelo Professor João Baptista Vilares – Colectânea fotocopiada, organizada por familiares.

Boletim Municipal de Alfândega da Fé, nº 2, Julho de 2004.

 

F. Lopes, 23 de Maio de 2010

 
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