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CENTENÁRIO

DA INSTAURAÇÃO

DA REPÚBLICA

 

 

Como gostava que pudéssemos aprender alguma coisa!

 

Vou participar de corpo e alma nas comemorações deste centenário e até lá espero não chegar à conclusão de que tudo isto não passa de mais um folclore à moda portuguesa, para esconder o essencial e enganar a realidade da vergonhosa situação político-ideológica em que nos arrastamos.

 

 

Explico esta minha posição de forma muito pragmática em três pontos:

 

1º-Ninguém sabe muito bem o que foi a 1ª República. Existem milhões de documentos, testemunhos e publicações, mas não há uma só obra de investigação que possa elucidar o que foi, em que consistiu e que dimensão geográfica teve este passo fundamental para a transição de regime. Na realidade é disso que podemos falar. Não de ruptura, mas de transição. Querer ir mais longe é um grande risco. O republicanismo não passa de uma palavra sem sentido ideológico, partidário e de Estado. A confusão foi de tal ordem que nenhum dos nossos historiadores actuais se aventurou até hoje a fazer uma síntese histórica sobre os acontecimentos ocorridos entre o 31 de Janeiro de 1891 e a queda do regime republicano implantado em 1910. Aliás, verdadeiramente ninguém sabe explicar em que data exacta caiu a República, a não ser, claro está, que se aceitem os factos meramente político-jurídicos da transição para o Estado Novo. Fala-se, por exemplo, que o princípio do fim da República foi o advento da Monarquia do Norte e que neste movimento, para lá dos naturais adversários, estavam já envolvidos outros sentimentos que aspiravam não ao Rei, mas a um Estado Forte. Estávamos em 1919, mas já em 1914 se conspirava contra a República de forma organizada! É caso para dizer se a 5 de Outubro de 1910 alguns dos que lutaram contra a Monarquia não conspiravam já contra a República! Nesta minha análise, naturalmente questionável, ocorre-me apenas o desabafo de Manuel Laranjeira sobre o livro de Miguel de Unamuno “Por tierra de Portugal y Espana” (1911- que incluiu um artigo intitulado “Um povo suicida”): “Que cousas tremendas e dolorosas V. diz da minha terra! E o mais triste é que não são ainda tão tremendas e dolorosas como a realidade.”

2º-O movimento Republicano português foi sobretudo um estado de espírito contra uma realidade político-social. Tal realidade já se tinha observado no movimento liberal de 1820, pouco mais de um século antes. Todos juntos enquanto o inimigo foi comum, quase todos separados depois de derrotado esse inimigo. A partir da mudança política, num, como no outro caso, foi o caos, a incapacidade para encontrar convergências e muito menos um rumo com futuro. Poderão dizer-me que o Liberalismo sobreviveu quase um século. Até sobreviveu mais do que isso, pois continuamos numa sociedade sob o signo do pensamento liberal, mais regra, menos regra. O republicanismo não passa, por isso mesmo, de uma versão liberal assente num regime político diferente.

3º-Comemorar o Centenário da Instauração da República pode ser um acto de contrição para a nebulosa sociedade do novo-riquismo político em que vivemos. Pode também ser um acto sério de perceber que no conhecimento dos erros do passado se podem encontrar algumas soluções para o presente. O que não pode ser, seguramente, é mais uma forma habilidosa de dar de comer a umas quantas de entidades pardas que se estão nas tintas para os ideais puros do republicanismo, que é como quem diz, actualmente, da democracia. Façam lá os enfeites que quiserem, branqueiem lá a História como entenderem, inventem mais umas patranhas para justificar o injustificável, façam lá os exercícios genealógico-partidários que satisfaçam egos e emoções, arvorem-se detentores e herdeiros de coisa nenhuma… Se estas comemorações não servirem, pelo menos, para alertar esta nossa actual e descuidada República do 25 de Abril que pode ter os dias contados se não mudar de rumo, dou por perdido o meu empenho. Mas levá-lo-ei até ao fim, sem arrependimento!

Esperemos, ao menos, que as comemorações deste centenário tragam de novo ao país o gosto pela caricatura, pela crítica e pela participação na vida pública, tal como aconteceu há cem anos, na 1ª República. Talvez esse seja o único caminho para que o Povo perceba verdadeiramente a razão de ser deste Centenário e o distinga positivamente de outros de menos boa memória e assim se garanta que mais tarde a História não nos julgue a todos, portugueses, como os tolos dos centenários…

 

 

F. Lopes, 18 de Janeiro de 2010

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 
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