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ANTÓNIO JACINTO DO AMARAL MARTINS

 

Alfândega da Fé nas raízes, África no destino.

 

Foi com um título quase idêntico a este que em 1997 escrevi para o Boletim Municipal da Câmara Municipal de Alfândega da Fé (nº 15, Maio de 97, página 12) algumas notas sobre António Jacinto, poeta angolano, com o objectivo de dar a conhecer a sua ligação familiar a esta terra, facto que continua a ser ignorado em todos os textos biográficos que tenho encontrado.

Naquela ocasião, para além de referir que o poeta assinava quase tudo como “Ajam”, avancei igualmente com uma hipótese explicativa da origem do pseudónimo “Orlando Távora”, que utilizou como contista.

Hoje retomo a ideia daquele texto, com algumas correcções, um ou outro pormenor novo e a transcrição de vários poemas que então apenas citei e outros que me pareceram oportunos, mas com o mesmo objectivo de ligar este nome grande da literatura angolana a Alfândega da Fé.

Mantenho os três poemas então publicados e continuo a achar que dois deles, “Um Perfil” e “Recordando”, são inéditos. O terceiro poema que então publiquei, “C. Bom”, encontrava-se numa folha dactilografada pelo próprio autor e foi publicado no livro “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” com o título “Paisagem em Frente”. Acresce referir que este poema apresenta a mesma data de “Oração”, também publicado naquela obra e que foi, como outros, escrito em memória da Mãe do autor, entretanto falecida. António Jacinto afirmou várias vezes que a Mãe teve uma influência decisiva no seu gosto pela escrita, pela leitura e pelas histórias. Mas no poema “Oração” ele revela claramente que a Mãe teve igualmente influência no desenvolvimento de outros valores que haveriam de definir o seu percurso de vida, o mesmo percurso que a levaria a um grande desgosto e muitas lágrimas derramadas, como o próprio poeta refere. Os pais de António Jacinto faleceram na década de sessenta e estão sepultados na terra natal, Alfândega da Fé.

Na edição de “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” Campo das Letras, 1ª Edição, Março de 2000 (com ilustrações do nosso conhecido Mestre José Rodrigues) foi inserido uma pequena carta de António Cardoso, redigida em 1982, na qual dizia a António Jacinto: “Tens de publicar os teus inéditos: não é justo não os podermos conhecer (…)”. A publicação destes dois textos inéditos foi, por isso, um modesto contributo para o conhecimento da obra poética inédita de António Jacinto, justificando-se agora uma divulgação mais ampla através deste blog.

Acrescento ainda uma fotografia de António Jacinto quando jovem, provavelmente tirada no Golungo Alto (Angola) que contém uma dedicatória “À Maria Cecília” a mesma Dª Maria Cecília Amaral, prima do poeta, que em 1997 me havia facultado os textos e dado algumas informações familiares e recentemente me colocou nas mãos mais esta foto rara e acabou por me explicar melhor algumas passagens da vida do poeta e da sua família, o que permitiu agora corrigir alguns erros do texto de 1997, nomeadamente o que respeita à indicação da “Natália e Reinaldo” como “primos”, quando, de facto, se trata de dois dos seus irmãos!

António Jacinto do Amaral Martins nasceu em Luanda (“embora preferisse ter nascido no Golungo Alto”, como diz Ana Paula Tavares, em “Cinquenta Anos de Literatura Angolana”) em 28 de Setembro de 1924, filho de pais Alfandeguenses, José Trindade Martins (conhecido pelos conterrâneos pela alcunha de “trinta e três”) e de Maria Cecília Amaral Martins, que como muitos outros filhos da terra procuraram em Angola uma vida mais próspera. O Pai, “Tio Zé”, como lhe chamavam os familiares mais novos, terá chegado a Angola por volta de 1912, numa época em que o regime republicano incentivava a colonização de África. Uns anos mais tarde veio a Portugal para casar e regressou novamente, já com a esposa, a “Tia Micas”, como era conhecida também pelos familiares. Viveram sobretudo no Golungo Alto (província do Cuanza Norte) e fixaram-se definitivamente em Luanda por volta de 1945.

Tanto quanto consegui apurar, António Jacinto esteve apenas uma vez em Alfândega da Fé ainda em criança e durante muito pouco tempo.

Antes de irem para Angola, os pais viveram na casa que era já dos avós e que no passado fora a “Casa dos Távoras” em Alfândega da Fé, hoje completamente descaracterizada da sua arquitectura original. Parece-me perfeitamente aceitável dizer que o pseudónimo de “Orlando Távora” que António Jacinto utilizou foi escolhido como “lembrança” destas raízes e da sua curta passagem pela terra dos pais.

O poeta foi o terceiro filho do casal Amaral Martins. Por Angola nasceram também os irmãos mais velhos, Humberto (falecido) e Natália (que ainda reside em Luanda) e o mais novo, Reinaldo Martins, que faleceu jovem e antes do próprio António Jacinto.

Conclui os estudos liceais em Luanda, no Liceu Salvador Correia de Sá, não tendo prosseguido os estudos em Lisboa, como era seu desejo. Se isso tivesse acontecido o curso seria engenharia de minas, como nos confidenciou a prima Maria Cecília. Pelos vistos, ainda chegou a despedir-se dos amigos para vir estudar para Lisboa, mas o pai acabou por mudar de ideias e o jovem António Jacinto acabaria por se empregar como funcionário de escritório.

Cedo se destacou como poeta e contista da geração Mensagem. Um dos textos já apresentado em 1997, “Um Perfil”, data de 1945, tinha então vinte anos. O estilo ainda não é o que viria a caracterizar a sua poesia, mesmo a lírica, mas nota-se já o traço crítico e até irónico que encontramos em alguns dos seus textos posteriores e mais conhecidos.

Embora filho de colonos, António Jacinto teve um percurso de vida essencialmente marcado pelo envolvimento político contra a colonização e o regime fascista que perdurava em Portugal. Em consequência disso foi preso a primeira vez em 1959 e novamente em 1961, sendo desta vez condenado a 14 anos de cadeia (o julgamento aconteceu apenas em 1963) pena que iria cumprir no tristemente célebre campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Em 1972 foi libertado, mas com residência fixa em Lisboa. No ano seguinte fugiu para Argel, indo depois integrar a guerrilha do MPLA.

Foi um destacado dirigente daquele movimento de libertação e após a independência de Angola foi Ministro da Cultura, de 1975 a 1978.

Morreu em 23 de Junho de 1991 em Lisboa e está sepultado em Luanda.

A sua obra está publicada nos seguintes livros: “Poemas”, 1961, “Vôvô Bartolomeu”, 1979, “Poemas”, 1982, “Em Kilunje do Golungo”, 1984, “Sobreviver em Tarrafal de Santiago”, 1985, “Prometeu”, 1987, “Fábulas de Sanji”, 1988.

 

A CASA ONDE VIVERAM OS PAIS DE ANTÓNIO JACINTO, EM ALFÂNDEGA DA FÉ

 

Actualmente existem outras alterações e da construção original resta apenas a parte respeitante à entrada (da capela?) e à primeira janela de guilhotina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poemas publicados em 1997, no Boletim Municipal da Câmara Municipal de Alfândega da Fé

 

UM PERFIL

em duas décimas

 

OLHOS NEGROS, PEQUENINA

BASTOS CABELOS DOIRADOS

PENA É MINHA MENINA

SEREM OXIGENADOS

 

É linda, muito ladina,

Elegante, vaporosa,

Redondinha, bem jeitosa,

OLHOS NEGROS, PEQUENINA,

Pequenino pé, traquina,

Com pulsos bem modelados,

Formosos lábios pintados,

Perna bem feita, catita,

Face redonda, bonita,

BASTOS CABELOS DOIRADOS.

 

Tangendo a lira divina,

Gloso o mote do Fresquinho:

Mas se me falta o jeitinho

PENA É MINHA MENINA

Pois sendo como a bonina

Queres versos inspirados

E os meus serão rasgados

E para sempre desfeitos

Por teus cabelos bem feitos

SEREM OXIGENADOS.

 

(Luanda, Junho de 1945)

 

RECORDANDO

 

Oh! Meu Golungo em que a floresta assume

Graças infinitas; doce perfume

Que o Zenza lendário vem beijando

Recordando fatal amor tão nefando!

 

Zenza caprichoso, me vens contando,

Quando sereno te estava fitando,

Uma história de louco ciúme,

Numa noite de vibrante ciúme.

 

Em que Ela, embalada, terna e amante

Em meus braços, chorosa e anelante

Me jurava amor eterno. Tão querida!

 

(Sem indicação de local e data)

 

Nota: O manuscrito, em papel quadriculado fino e escrito a verde, provavelmente parte de uma carta, contém a seguinte dedicatória: “dedicado à terra da Natália e do Reinaldo”, dois irmãos do poeta.

 

C. Bom

 

Paisagem em frente

No espelho do horizonte

Imagem é

do fogo a Ilha de fronte.

 

E o Mar! O Mar

de envolver volveres de solidão?

Obsessivo

O desejo de partir

E esta maldição

Imular

De nunca chegar

E de jamais voltar!

 

(CT. Chão Bom, 29/3/1967)

 

Nota: Este poema foi publicado, como já referi, em “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” Na versão do livro o primeiro verso passa a título, “Paisagem em Frente”, começando no verso seguinte. O nono verso do texto publicado contém a palavra “Imular” mas na versão do livro foi substituída por “Insular”.

 

OUTROS POEMAS

 

Carta dum contratado

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que dissesse

deste anseio

de te ver

deste receio

de te perder

deste mais que bem querer que sinto

deste mal indefinido que me persegue

desta saudade a que vivo todo entregue...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta de confidências íntimas,

uma carta de lembranças de ti,

de ti

dos teus lábios vermelhos como tacula

dos teus cabelos negros como dilôa

dos teus olhos doces como macongue

dos teus seios duros como maboque

do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por aí...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que recordasse nossos dias na capôpa

nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

o luar que se coava das palmeiras sem fim

que recordasse a loucura

da nossa paixão

e a amargura da nossa separação...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que a não lesses sem suspirar

que a escondesses de papai Bombo

que a sonegasses a mamãe Kiesa

que a relesses sem a frieza

do esquecimento

uma carta que em todo o Kilombo

outra a ela não tivesse merecimento...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que ta levasse o vento que passa

uma carta que os cajus e cafeeiros

que as hienas e palancas

que os jacarés e bagres

pudessem entender

para que se o vento a perdesse no caminho

os bichos e plantas

compadecidos de nosso pungente sofrer

de canto em canto

de lamento em lamento

de farfalhar em farfalhar

te levassem puras e quentes

as palavras ardentes

as palavras magoadas da minha carta

que eu queria escrever-te amor...

 

Eu queria escrever-te uma carta...

 

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender

por que é, por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes ler

e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

(Poemas)
 

Monangamba

 

Naquela roça grande não tem chuva

é o suor do meu rosto que rega as plantações:

 

Naquela roca grande tem café maduro

e aquele vermelho-cereja

são gotas do meu sangue feitas seiva.

 

 O café vai ser torrado

pisado, torturado,

vai ficar negro, negro da cor do contratado.

 

Negro da cor do contratado!

 

Perguntem às aves que cantam,

aos regatos de alegre serpentear

e ao vento forte do sertão:

 

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?

Quem traz pela estrada longa

a tipóia ou o cacho de dendém?

Quem capina e em paga recebe desdém

fuba podre, peixe podre,

panos ruins, cinquenta angolares

"porrada se refilares"?

 

Quem?

 

Quem faz o milho crescer

e os laranjais florescer

- Quem?

 

Quem dá dinheiro para o patrão comprar

maquinas, carros, senhoras

e cabeças de pretos para os motores?

 

Quem faz o branco prosperar,

ter barriga grande - ter dinheiro?

- Quem?

 

E as aves que cantam,

os regatos de alegre serpentear

e o vento forte do sertão

responderão:

- "Monangambééé..."

 

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras

Deixem-me beber maruvo, maruvo

e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

 

- "Monangambééé..."

 

(Poemas)
 

Poema da alienação

 

Não é este ainda o meu poema

o poema da minha alma e do meu sangue

não

Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema

o grande poema que sinto já circular em mim

 

O meu poema anda por aí vadio

no mato ou na cidade

na voz do vento

no marulhar do mar

no Gesto e no Ser

 

O meu poema anda por aí fora

envolto em panos garridos

vendendo-se

vendendo

 

“ma limonje ma limonjééé”

 

O meu poema corre nas ruas

com um quibalo podre à cabeça

oferecendo-se

oferecendo

 

“carapau sardinha matona

ji ferrera ji ferrerééé...”

 

O meu poema calcorreia ruas

“olha a probíncia”  “diááário”

e nenhum jornal traz ainda

o meu poema

 

O meu poema entra nos cafés

“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”

e a roda do meu poema

gira que gira

volta que volta

nunca muda

 

“amanhã anda a roda

amanhã anda a roda”

 

O meu poema vem do Musseque

ao sábado traz a roupa

à segunda leva a roupa

ao sábado entrega a roupa e entrega-se

à segunda entrega-se e leva a roupa

 

O meu poema está na aflição

da filha da lavadeira

esquiva

no quarto fechado

do patrão nuinho a passear

a fazer apetite a querer violar

 

O meu poema é quitata

no Musseque à porta caída duma cubata

        

“remexe remexe

paga dinheiro

vem dormir comigo”

 

O meu poema joga a bola despreocupado

no grupo onde todo o mundo é criado

e grita

 

“obeçaite golo golo”

 

O meu poema é contratado

anda nos cafezais a trabalhar

o contrato é um fardo

que custa a carregar

 

“monangambééé”

 

O meu poema anda descalço na rua

 

O meu poema carrega sacos no porto

enche porões

esvazia porões

e arranja força cantando

 

“tué tué tué trr

arrimbuim puim puim”

 

O meu poema vai nas corda

encontrou sipaio

tinha imposto, o patrão

esqueceu assinar o cartão

vai na estrada

cabelo cortado

        

“cabeça rapada

galinha assada

ó Zé”

 

picareta que pesa

chicote que canta

 

O meu poema anda na praça trabalha na cozinha

vai à oficina

enche a taberna e a cadeia

é pobre roto e sujo

vive na noite da ignorância

o meu poema nada sabe de si

nem sabe pedi

O meu poema foi feito para se dar

para se entregar

sem nada exigir

 

Mas o meu poema não é fatalista

o meu poema é um poema que já quer

e já sabe

o meu poema sou eu-branco

montado em mim-preto

a cavalgar pela vida.

 

(Poemas)


 

Castigo pro comboio malandro

 

passa

passa sempre com a força dele

ué ué ué

hii hii hii

te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem

 

o comboio malandro

passa

 

Nas janelas muita gente

ai bô viaje

adeujo homéé

n'ganas bonitas

quitandeiras de lenço encarnado

levam cana no Luanda pra vender

 

hii hii hii

aquele vagon de grades tem bois

muú muú muú

 

tem outro

igual como este dos bois

leva gente,

muita gente como eu

cheio de poeira

gente triste como os bois

gente que vai no contrato

 

Tem bois que morre no viaje

mas o preto não morre

canta como é criança

"Mulonde iá késsua uádibalé

uádibalé uádibalé..."

Esse comboio malandro

sozinho na estrada de ferro

passa

passa

sem respeito

ué ué ué

com muito fumo na trás

hii hii hii

te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

 

Comboio malandro

O fogo que sai no corpo dele

Vai no capim e queima

Vai nas casas dos pretos e queima

Esse comboio malandro

Já queimou o meu milho

 

Se na lavra do milho tem pacacas

Eu faço armadilhas no chão,

Se na lavra tem kiombos

Eu tiro a espingarda de kimbundo

E mato neles

Mas se vai lá fogo do malandro

- Deixa!-

Ué ué ué

Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

Só fica fumo,

Muito fumo mesmo.

 

Mas espera só

Quando esse comboio malandro descarrilar

E os brancos chamar os pretos pra empurrar

Eu vou

Mas não empurro

- Nem com chicote -

Finjo só que faço forca

Aka!

 

Comboio malandro

Você vai ver só o castigo

Vai dormir mesmo no meio do caminho.

 

(Poemas)

 
 

Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!

 

Um retângulo oco na parede caiada Mãe

 

Três barras de ferro horizontais Mãe

Na vertical oito varões Mãe

Ao todo

vinte e quatro quadrados Mãe

No aro exterior

Dois caixilhos Mãe

somam

doze retângulos de vidro Mãe

As barras e os varões nos vidros

projetam sombras nos vidros

feitos espelhos Mãe

Lá fora é noite Mãe

O Campo

a povoação

a ilha

o arquipélago

o mundo que não se vê Mãe

Dum lado e doutro, a Morte, Mãe

A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe

A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe

E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe

Cale-se o que não se vê Mãe

e veja-se o que se sente Mãe

que o poema está no que

e como se vê, Mãe

Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!

 

Mãe

aqui não há poesia

É triste, Mãe

Já não haver poesia

Mãe, não há poesia, não há

Mãe

 

Num cavalo de nuvens brancas

o luar incendeia carícias

e vem, por sobre meu rosto magro

deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe

 

Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!

 

(Sobreviver em Tarrafal de Santiago)

 

Oração

 

Mãe

Agora que tu partiste

que será do teu menino?

Quem rirá da minhas partidas

e travessuras?

Quem terá indulgências aos erros meus

e sentirá as minhas amarguras?

Quem me contará histórias de encantar

das fadas e do fantástico

-ainda preciso delas, Mãe-

quem me ensinará as primeiras letras da Cartilha Maternal

me falará das estrelas

da África

da Europa do Atlântico do Universo

me ensinará amor pelas andorinhas e pelos humildes

e me ensinará humanidade?

Quem?

Agora que te foste embora

(quantas lágrimas por mim choraste,

e choraste por ti à partida?)

onde um regaço para pousar minha cabeça de cansaços?

Mãe

agora que partiste

o teu menino está perdido na floresta de gigantes maus

escuta Mãe

o teu menino será forte

como quiseste

(«come Antoninho»

«come Antoninho»)

E saberá pelas estrelas

Encontrar o caminho da nossa casa

Mãe.

Agora que tu partiste

Ainda estamos sempre juntos

(cordão umbilical inquebrável nos ligou)

ainda estamos juntos

a cada raio de sol

a cada revérbero de Lua no mar

a cada murmuro lamento da floresta no Golungo

-sempre juntos

Mãe.

 

(Sobreviver em Tarrafal de Santiago)

 

F. Lopes, 26 de Fevereiro de 2007

 
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