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Uma má relação do tabaco com o olfacto

 Texto de João Viana Jorge

 A minha rua estava a ser asfaltada e o cheiro, que entrava pela casa dentro e já me tinha estragado o almoço, levou-me a sair para ir tomar um cimbalino (estamos no Porto) ao café restaurante do costume, onde ainda não tinha ido depois de só se destinar a não fumadores.

Na rua o cheiro era ainda mais forte, o que me levou a acender um cigarro para forrar as mucosas com a nicotina a que já estava habituado em vez daqueles vapores. Calculei que os trabalhadores que aspiravam um tal pivete deviam estar a ser substituídos de duas horas e meia em duas horas e meia como os empregados de restaurantes em que se fuma, dado não terem querido usufruir da liberdade de não aceitar aquele trabalho indo para o desemprego com fundo ou sem ele … mas não confirmei.

Na rua que entronca na minha e sobe para a do café era mais que suficiente dar uns passos para o cheiro se tornar menos agressivo porque era de lá que vinha o vento, só que poucos metros depois estava um furgão a arrumar e outros dois, entremeados por um táxi, parados e com os motores a trabalhar, libertando gasóleo, queimado e por queimar, suficiente para justificar o acender doutro cigarro como medida de defesa idêntica à anterior.

Felizmente ao mudar de novo de direcção rumo ao café, numa rua arborizada, deixei de sentir qualquer cheiro e devo ter pensado, não me lembro se pensei, que ia ver-me livre de odores incómodos incluídos os do meu próprio cigarro. O tempo que levei a tomar consciência do que devo ter pensado (eu sou lento) foi o suficiente para chegar à porta do café e abri-la.

Mal a abri invadiu-me as narinas um cheiro difícil de descrever, talvez quente, adocicado e enjoativo, parecido com o que em tempos antigos era comum em confeitarias muito pequenas mas com fabrico próprio, talvez adicionado ao de couve cozida; provavelmente era o cheiro habitual daquela casa mas, anteriormente o fumo do tabaco disfarçava-o. A parte chata da questão é que eu, ao contrário do protagonista de O PERFUME que não considerava os cheiros nem bons nem maus, servindo-se deles sobretudo para se orientar, eu, como ia dizendo, sempre os dividira entre bons e maus considerando judiciosamente que os melhores eram os bons … e este não era dos melhores. Era, digamos, daqueles que podiam eventualmente esquecer-se em situações particulares como seria o caso dos emanados de uma pasteleira ou similar com o formato, a idade, o olhar apropriados e em circunstâncias convenientes. Sem pasteleira adequada o cheiro incomodou-me.

A mesa em que me sentei ficava ao lado de outra ocupada por quatro jovens, apresentando-se de costas para mim uma com a roupa desemendada, isto é, com uma faixa de pele à vista entre a cinta das calças e a barra da camisola e em metade dessa distância, ou porque as calças fossem de cinta baixa ou devido ao modo de sentar via-se a parte superior do rêgo do cu. Podia e devia essa visão ser um incentivo à modelação mental, com efeitos eróticos ou p´r´aí, do resto dum rabinho que não parecia desajeitado … mas não foi assim. Ao invés, a ideia que me surgiu e a tentação a que tive de resistir foi à de fazer uma bolinha com um guardanapo de papel e trilhar-lha entre o rego do cu e a cinta das calças para tentar desfazer o efeito chaminé daquele rêgo, de onde emanava um indesmentível cheiro a merda. O que valeu é que a rapariga saiu com a que estava ao lado antes que eu cedesse à tentação descrita; passei assim a poder respirar melhor mas estava a começar a sentir-me infeliz e fisicamente mal disposto.

Fiquei, logo a seguir, levemente enjoado, dado que quando o empregado se colocou à minha frente para me perguntar o que queria e se o café era curto, comprido ou cheio, assaltou-me outro fedor de que me lembrava do tempo em que dava aulas ao primeiro tempo da manhã, (o que uma amiga minha chamava cheiro a raposinho) ou a seguir às aulas de ginástica, digo, de Educação Física (este era um pouco mais ácido). Todavia, curiosamente, a imagem associada ao cheiro não era a de um indistinto conjunto de caras de uma turma de alunos, mas, bem nítida, a do primeiro-ministro a correr de camisola interior caveada e rodeado de uns tipos com o ar compungido de quem empurra uma cadeira de rodas. Aceitei com resignação que um azar tão persistente me estivesse a provocar alucinações e fiquei ligeiramente melhor quando o empregado me trouxe o café porque o cheiro do café vinha à frente e escondia o outro. Nem sequer protestei com o leve eflúvio a bagaço proveniente da chávena porque o empregado podia responder-me que passavam sempre as chávenas de café por um pouco de bagaço para o tornar mais saboroso, que a própria inspecção da ASAE tinha achado esse hábito original mas não proibido ou até que se não gostava fosse tomar café a outro lado.

Na verdade o café não estava mau de todo o que me propiciou um inefável momento de relaxe que só não durou porque o empregado, que tinha ido receber a conta das duas jovens que tinham ficado na mesa ao lado da minha, foi abordado por uma senhora com ar de autoridade na casa e umas minúsculas gotas de suor no buço (a mim pareceram-me minúsculas mas eu vejo mal) que se colocou entre ele e eu, passando-lhe o que devia ser uma reprimenda em voz baixa.

Não recordo ao certo, mas julgo que foi Pitigrilli quem escreveu que o odor mais erótico do mundo consistia na mistura de suor fresco de mulher nova com umas gotas de um bom perfume francês. Mas … ou o suor não era fresco, ou a mulher não era nova, ou o perfume não era bom ou não era francês ou havia mistura de outros cheiros ou parte disso ou tudo isso junto, o facto é que o cheiro da mulher, em vez do erotismo, despertou-me fortes movimentos peristálticos mas de sentido inverso, num estômago que parecia estar a decidir livrar-se do seu conteúdo pela entrada em vez de pela saída.

Enquanto eu fazia desesperados apelos ao poder da mente para retomar o meu estado normal, fazer sinal ao empregado para vir receber, pagar e vir embora, ele e a mulher tinham-se afastado para o fundo da sala e as duas raparigas da mesa ao lado tinham saído deixando a mesa livre.

Certa e justificadamente com a noção do tempo alterada, pareceu-me que a mesa (era a que dispunha de mais espaço à volta) foi imediatamente abordada por uma senhora de menopausa mais que esquecida empurrando um carrinho de criança (seguramente de um neto ou neta; eu, tapados e daquele tamanho não lhes distingo o sexo!) que colocou no lugar onde estivera a jovem de costas para mim e sentou-se num lado adjacente da mesma mesa.

Em muito menos tempo do que levou a senhora a ajeitar-se na cadeira vi na roupa que cobria a criança e senti, já não só no nariz mas no próprio cérebro (acho até que fiquei com uma ideia precisa da localização do centro cerebral do olfacto) o vomitado recesso. Acto contínuo o meu estômago decidiu por conta própria e pôs cá fora mesmo em cima da mesa, na ordem inversa da ingestão, o café, a maçã e boa parte do arroz de grelos com lombinhos de tamboril que tinha comido ao almoço.

Com um esforço enorme e um lenço a tapar a boca saí pela porta da rua que era muito mais perto do que a da casa de banho mas lembro-me muito bem de, enquanto ao mesmo tempo vomitava e tirava o lenço do bolso, pensar que me seria muito mais confortável acabar de vomitar na mesa do café porque o que era proibido era fumar e não vomitar. A verdade é que saí… sem saber porquê.

Estava cá fora a amparar-me a uma árvore para vomitar o resto quando um amigo que ia a passar, com a atrapalhação de me querer ajudar soprou-me para a cara o fumo que tinha engolido; tossi mas passou-me a vontade de vomitar. Acendi o meu próprio cigarro e, entre a vergonha de voltar lá dentro para pagar o café e a de não o pagar, decidi-me pela mais económica; de qualquer modo àquele café não volto e estou mesmo a pensar não entrar em mais nenhum onde não se fume.

O meu amigo levou-me ao escritório dele e depois a jantar em casa; discutimos muito os malefícios do tabaco e as enormes vantagens de deixar de fumar; o pior são os cheiros porque toda a gente diz que deixando de fumar o olfacto fica muito mais apurado.

 

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