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BARRAGEM DO BAIXO SABOR…E AGORA?!

 
“A Barragem do Baixo Sabor não pode continuar
a ser palco de oportunismos políticos”.
De acordo. Nem de oportunismos ambientalistas,
nem de oportunismos intelectuais,
nem de oportunismos locais.
A barragem do Baixo Sabor tem de ser
palco de um debate sério e honesto,
de um debate técnica e cientificamente
assente em dados e documentos concretos
e não em suposições e generalidades, sejam elas
económicas, ambientais, patrimoniais ou culturais.
Se a barragem do Baixo Sabor não se concretizar
as populações têm o direito de saber
quais são as alternativas para tirar a
região do atraso em que se encontra
e que medidas vão ser tomadas para
proteger o que existe e criar novas fontes
de riqueza que travem o despovoamento. 
 

Este é, sem dúvida, um assunto polémico. Confesso que fui e sou a favor da construção da Barragem do Baixo Sabor, mas declaro desde já que o meu apoio à construção desta infra-estrutura não fez, nem faz de mim um fundamentalista, ou seja, não me levou a ignorar os prós e os contra, nem a aceitar como dados adquiridos alguns pressupostos de vantagens ou desvantagens que até agora têm sido apresentados à opinião pública.

Vamos lá ver se com este texto adianto mais alguma coisa para além do que se tem escrito.

Ora bem, acontece que eu vivo “paredes-meias” com o rio Sabor e toda a sua envolvência. Pelo menos de “Silhade” (escrevo como aparece nos documentos antigos) até ao termo de Vilarchão, eu conheço este rio como certamente muito poucos daqueles que sobre ele têm falado. Conheço o rio, a fauna e a flora, mas sobretudo as pessoas que habitam nas actuais aldeias, muitas delas com uma relação directa com povoados mais antigos, alguns castrejos, mas significativamente todas bastante afastadas do rio. Também ainda conheci gente que habitava as quintas, como a Quinta Branca, a do Santo Antão da Barca e a de Santo André, mas isso são tempos passados, porque esses sítios já não têm ninguém que os habite. As pessoas deixaram simplesmente estes lugares porque nunca ninguém lhes proporcionou condições de vida para ali permanecerem, ou foram morrendo, como morrem lentamente as aldeias, onde a grande maioria da população está envelhecida e já não pode trabalhar os campos.

Quero com isto dizer que os defensores do pretenso “rio selvagem” e da paisagem maravilhosa e edílica escondem, ou pelo menos ignoram, uma outra realidade bem mais dramática: é que por estas paragens a espécie verdadeiramente em extinção são as pessoas e ninguém parece preocupar-se muito com isso!

Exactamente por essa razão, importará deixar aqui, desde já, uma primeira pergunta: o património de que falamos quando nos referimos ao Baixo Sabor e que eventualmente se perderia com a construção da barragem, é natural ou humanizado?

 

SOBRE A TEORIA DO “RIO SELVAGEM”

 

Tanto quanto eu posso perceber pelo conhecimento que tenho desta parte do rio Sabor (“Silhade”-Vilarchão) e que corresponde à área de maior inundação da albufeira, o património é essencialmente humanizado, exceptuando alguns penhascos de interesse paisagístico e possivelmente geológico que existem nas encostas do vale, na maior parte dos casos localizados em cotas muito acima da zona de inundação. Por humanizado entendemos a utilização agrícola do solo e até a introdução de espécies exóticas, como as grandes áreas de eucaliptos (por onde andariam os fundamentalistas da natureza quando as máquinas arrasaram milhares de hectares de olivais, amendoais e terras de cereal para abrir socalcos e plantar essa espécie e outras tão exótica e incaracterística como ela…), a construção de habitações, de pequenos povoados, quintas, como se chamam por aqui, porque na zona da albufeira, nem perto dela, não existe nenhuma aldeia. Se a barragem fosse construída as que ficariam mais próximas de margem da albufeira seriam Felgar (Torre de Moncorvo) e por estranho que pareça Sendim da Ribeira (Alfândega da Fé) que estando mais afastada do rio que outras, se localiza numa zona de expansão da albufeira através da ribeira de Zacarias.

Ora, se o vale do Baixo Sabor foi sujeito ao longo de séculos, sobretudo desde o século XVIII, a uma forte acção humana, o que é que poderemos entender quando alguém “grita” com ares de grande sapiência, aqui d’El-Rei que vão acabar com o único rio selvagem de Portugal?!

“Rio Selvagem”?! Não brinquem com coisas sérias. O Sabor só é selvagem na sua força de corrente quando as invernias apertam. E as invernias são cada vez menos. Por isso o rio seca, deixa de correr, transforma-se num amontoado de charcos imundos, com água verde e malcheirosa, onde morrem peixes, lagostins e outras espécies aquáticas, não dá de beber, nem garante sustentação ecológica para muitas outras espécies, nomeadamente algumas aves que compunham o mundo das suas margens e foram desaparecendo do vale. Só pode chamar “selvagem” a um rio destes, no sentido de que ele faz parte de um ecossistema que foi preservado até hoje da acção humana, quem fala sem conhecer, ou pior ainda, quem tendo dado uma “espreitadela” confundiu a actual paisagem com natureza “virgem” e não percebeu que os montes de giestas, de estevas e de outras espécies “bonitas de ver na Primavera”, as carrasqueiras, as silvas etc., ocuparam olivais, amendoais, vinhas e outras culturas, por uma simples razão: faltou o Homem que as cuidava e delas tirava o seu sustento.

Repare-se que eu apenas me refiro ao Baixo Sabor. O que se passa no resto do percurso do rio, que nasce na Serra de Montesinho, ainda agrava mais o que acabamos de dizer.

Este não é, por isso um “rio selvagem”. É um rio abandonado, como abandonadas foram as pessoas que cuidavam das suas margens, que semeavam as hortas, que construíram e fizeram funcionar os seus moinhos, que plantaram e semearam as suas encostas. E sem água, nem o alimento que provinha da faina agrícola, que espécies pensam os entendidos que vão sobreviver no vale do rio Sabor?

O que verdadeiramente está a acontecer é a rápida erosão e desertificação dos solos. Dentro de uma ou duas décadas esta zona não terá qualquer valor económico e é pouco provável que alguém se atreva a vir aqui para desfrutar de uma falsa beleza que acima de tudo nos envergonhará a todos, mas particularmente àqueles que contribuíram para que assim acontecesse. Só uns quantos de “inteligentes” que passam sempre por estas bandas a fugir em direcção à “civilização” podem subscrever “as excelentes condições do rio para a prática de desportos de águas bravas (…)”. Se isto não fosse um assunto sério diríamos que o país tem vivido num intenso gozo de riso desgarrado a reposição temporalmente actualizado do célebre texto de Gil Vicente, “Todo o Mundo e Ninguém”.

Poderíamos, por exemplo reescrever assim o texto:

Todo o Mundo quer a Barragem, mas tem medo de incomodar Ninguém

Todo o Mundo está farto de ser esquecido e enganado e Ninguém acredita na Arca de Noé a custo Zero”

Alguém afirmou num comentário a um texto sobre esta problemática da Barragem do Baixo Sabor que o argumento da necessidade de o país investir na produção de energia limpa já não serve, pois alguns países desenvolvidos já não consideram dessa forma a energia hidroeléctrica. Talvez seja assim, mas gostaria de saber quais são esses países e se pensaram sempre assim, ou passaram a ter essa perspectiva apenas depois de evoluírem noutros sentidos? E será que nesses países ditos desenvolvidos se permite que exista uma região abandonada como está o Nordeste Transmontano e todo o vale do Sabor?

Já agora, se é verdade que o país vai ter de pagar uma soma avultada por exceder os limites de emissão de gases poluentes, uma pergunta aparentemente ingénua: por que razão as populações abandonadas do interior hão-de pagar por uma coisa de que não são responsáveis? Para ser mais correcto e utilizando os números da “Plataforma Sabor Livre”, o mais que poderemos é ser responsabilizados e pagar pelos 0,17% que seria o contributo da nossa não-barragem para a diminuição do total de emissões de CO2 em Portugal.

Será que nas grandes zonas urbanas os ambientalistas, coerentes com os princípios que defendem para os outros, não põem o dedinho no interruptor, acendem a luz e ligam o ar condicionado ou o aquecimento, não usam o gás de cidade, ou de botija, não utilizam o automóvel, ou mesmo os transportes públicos, não consomem pilhas, (como gostaria de ter a certeza que vão todas para o pilhómetro…), não se deliciam com a caça desportiva e poluem os terrenos dos outros com chumbo e cobre, não habitam nos grandes empreendimentos imobiliários que dão que fazer às cimenteiras, enfim, andam todos a pé e vivem ao ar livre, comem do que a natureza lhes dá e brincam nos parques naturais!

 

ALGUMAS NOTAS SOBRE O PATRIMÓNIO ARQUEOLÓGICO DO BAIXO SABOR

 

Vamos lá ver se nos entendemos. A questão da Barragem do Baixo Sabor não pode continuar a ser um pasto fácil de parolices, mentiras e equívocos de gente que não tem a mínima noção do que significa o desenvolvimento sustentado e sustentável e tem do património uma ideia perfeitamente absurda: para que raio nos serve o património se à custa de tanto o defendermos, abandonando-o, sacrificamos aqueles que o construíram?

Há abrigos pré-históricos no vale do Baixo Sabor? Onde ficam? Já calcorreei muitos montes e fragas, já percorri as margens e não encontrei nenhum. Andei com arqueólogos no cabeço do Aguilhão, onde se dizia que havia vestígios desses e nada. São mesmo abrigos, ou locais que se supõe que tenham sido? Não tiveram utilizações posteriores? Se são tão importantes por que razão não foram ainda estudados? E não me venham dizer que isto fica muito longe, ou que não há arqueólogos suficientes porque eu vejo uma data deles a passar a vida a estudar os mesmos abrigos e os mesmos castros sem publicarem nada que nos ajude a compreender melhor o povoamento antigo do nosso território. Estão tão preocupados em trabalhar perto de casa como toda a gente, essa é que é a questão! Por isso ignoravam as gravuras do Côa. Se viessem para o interior e muito concretamente para o vale do Baixo Sabor, sem ser em visitas apressadas e de fins duvidosos, certamente que não andaria tanta gente a dizer tantas asneiras sobre o património arqueológico que ali existe, ou não existe.

 

Existem gravuras rupestres no vale do Baixo Sabor?

 

É possível que sim. Por que razão não haveria de existir, se também existem em Ridevides e ainda o ano passado foram descobertas mais três pedras com registos desses (uma delas apresentada por mim no Encontro Internacional de Arqueologia realizado em Freixo de Espada à Cinta, onde não me consta que alguém tenha apresentado outros exemplos do vale do Baixo Sabor…). É possível que gravuras deste tipo existam em muitas outras zonas e não será novidade para ninguém se afirmar que muitas delas têm sido destruídas por novas intervenções humanas. Se levássemos este assunto até à exaustão depressa chegaríamos a um paradoxo interessante: só não haveria destruição de património se estivéssemos quietinhos e não mexêssemos em nada; mas se estivéssemos quietinhos e não mexêssemos em nada quem construiria o património?

O estudo de impacto ambiental da Barragem do Baixo Sabor só localiza uma gravura. Não conheço outros exemplos, nem nenhuma notícia que permita qualquer pessoa chegar até um desses locais. Como até já utilizo GPS há quase uma dezena de anos e sei ler correctamente uma carta militar, deixo aqui o repto a quem tenha dados sobre a matéria.

De qualquer forma, depois de tanta gente entendida ter dito que andou a pesquisar o vale, não tenho grandes dúvidas que se existem gravuras a sua importância deve ser muito pequena, caso contrário já todos saberíamos onde efectivamente se localizam. Isto faz-me recordar uma passagem recente com uns jovens arqueólogos de uma instituição pública que não importa referir, mas cujo desenvolvimento deve merecer alguma reflexão. Há uns anos o presidente da Junta de Freguesia de Eucísia (Alfândega da Fé), sabendo do meu interesse pelas questões do património, deu-me a notícia de uma pedra com gravuras que a população já conhecia há umas décadas. É mesmo possível que esta pedra já fosse identificada no tempo em que o arqueólogo Santos Júnior andou pela zona e estudou a pedra escrita de Ridevides e a Necrópole de Vilarelhos, no mesmo concelho. Estranhamente, nem ele, e antes dele o Abade de Baçal, mencionaram alguma vez esta pedra a que eu resolvi dar o nome de “Pedra das Ferraduras”, recorrendo à associação grosseira entre as gravuras e as ferraduras dos animais de carga, até porque igual designação tinha sido utilizada para gravuras semelhantes existentes em Ridevides.

O certo é que publiquei o “achado” no Boletim Municipal do concelho e uns dois anos depois levei lá os jovens arqueólogos que me garantiram, sem grandes dúvidas, que aquilo não deveria ser antigo e tudo indicava que tivesse sido feito por algum pastor ou curioso, uma vez que se notava claramente que as incisões na rocha (xisto mole) estavam muito “vivas” e não tinham líquenes. Não encontrei a explicação de todo disparatada, mas havia algumas gravuras com outras tonalidades e não tendo contra-argumentado por falta de conhecimentos técnicos, não me dei por convencido. O ano passado (2004), levei à “Pedra das Ferraduras” mais um grupo de arqueólogos, um dos quais italiano e especialista na matéria. Sorriram com as explicações anteriores e garantiram (e deram as necessárias explicações técnicas) que as gravuras eram possivelmente contemporâneas das da pedra de Ridevides, ou seja, têm cerca de cinco mil anos!

Conto esta história não para escarnecer do trabalho e da intenção dos arqueólogos, que sei não ser fácil do ponto de vista científico, mas para deixar no ar mais uma pergunta incómoda: na zona de Ridevides estão neste momento identificados seis locais com gravuras rupestres e isto não parece fazer do local nada de importante do ponto de vista do património arqueológico, a avaliar pelo interesse que lhe tem sido dado pelas instituições e pelos investigadores. Será que no vale do Baixo Sabor existe sequer um conjunto destes? E se existe, justifica parar uma barragem?

Mas sobre este assunto têm sido proferidas afirmações que são, no mínimo vergonhosas, sobretudo aquelas que têm origem em pessoas que supostamente deveriam primar pela honestidade intelectual e científica. Para mim não passam de mentiras grosseiras.

Vejamos alguns exemplos, todos retirados de “SOS Rock-Art”:

 

1º Exemplo: “Actualmente segundo a base do IPA existem 30 sítios de arte rupestre  nos concelhos de Alfândega da Fé, Mogadouro e Torre de Moncorvo.”

A primeira parte desta mentira é fácil de detectar, mas como o texto é ardiloso, certamente que enganou muita gente. Fala-se de 30 sítios de arte rupestre referentes a toda a área de três concelhos, nada mais, nada menos, do que 1.610 Km2 (o distrito de Lisboa tem 2.770 Km2)! É evidente que a albufeira da barragem do Sabor teria uma dimensão apreciável, mas nada, mesmo nada, que se pareça com semelhante área. Não será isto “lançar poeira para os olhos das pessoas”?

Mas quantos desses sítios de arte rupestre se localizam no vale do Baixo Sabor e correriam o risco de ficar debaixo de água se a barragem se fizesse? Que se saiba, apenas um. Uma única gravura!  

 

2º Exemplo: “Segundo o CNART* existem  4 sítios com gravuras claramente em estilo paleolítico no Sabor:

1-Ribeira da Sardinha : Auroque, descoberto durante os trabalhos de prospecção para o EIA em 1997. Se  a barragem for construída fica debaixo de água.
2-Fraga Escrevida (Paradinha a Nova, Bragança). Já o Abade Baçal fazia referência as suas gravuras. Sobreposto por cruzes e outras figuras geométricas, existe pelo menos uma figura de grandes dimensões de auroque.
3-Três painéis de xisto em Sampaio (Milhão) sempre no concelho de Bragança. A pouca distância da ponte medieval de Valbom, junto a IP4. São 3 auroques, um dos quais com duas cabeças.

4-Foz da Ribeira do Pousadouro (Grijó de Parada) também em Bragança.”

Aqui está outra forma habilidosa de enganar as pessoas. Referem-se “4 sítios com gravuras claramente em estilo paleolítico no Sabor”: o “claramente em estilo” significa que nem há a certeza, o que não me admira, depois do que já disse acerca do interesse que os arqueólogos e instituições públicas ligadas ao património têm ligado à região (veja-se, aliás, a referência ao Abade de Baçal…); mas o grave, mesmo grave, é que dos quatro sítios, três situam-se no concelho de Bragança, ou seja, no vale do Alto Sabor, quando a questão é discutir o vale do Baixo Sabor. Apenas um sítio no vale do Baixo Sabor, o da Ribeira da Sardinha. Segundo o IPA (foi o CNART que identificou o local em 1997) trata-se de um “Painel de xisto que se encontra dividido em três partes, sendo no fragmento esquerdo onde se encontra gravada uma figura, provavelmente um auroque (bovídeo). A gravação é feita pela técnica do picotado, sendo perceptível a cabeça e a parte anterior do corpo.”  

 

3º Exemplo: “Por fim, existe ainda segundo o CNART, no cabeço de Aguilhão  existe um painel  de xisto com algumas figuras "neolítica"   que na única  fotografia publicada, que conhecemos, recorda na técnica a figura de cervídeo de Vale de Cabrões.”

Anteriormente já referi que conheço o cabeço do Aguilhão e já lá estive com arqueólogos. Agora é obrigatório identificar que eram do IPA (Macedo de Cavaleiros). Não vimos nada e se ali existiu alguma coisa foi destruída pelas plantações de eucaliptos da Celbi

Continuar a referir o Cabeço do Aguilhão é, por isso, continuar a enganar as pessoas.

O que se encontra na base de dados do IPA nem se refere a gravuras, mas a um povoado fortificado e é erradamente colocado na freguesia de Cerejais, quando se localiza na de Parada (ambas do concelho de Alfândega da Fé).

Suponho que com este exemplo fica evidente o “rigor científico” com que muita gente anda a trabalhar as questões do vale do Baixo Sabor. Já agora, vale a pena dizer que o Cabeço do Aguilhão tem a altitude de 393, pelo que o referido povoado, se ainda existisse, não seria submerso pelas águas da albufeira!

 

Existem castros no vale do Baixo Sabor?

Existem, sim senhor.

 

Pode ser que não estejam todos identificados, (os “especialistas” de salão desta área há décadas que se limitam a reproduzir os que estão identificados na obra do Abade de Baçal…e quanto a estudos da região, zero) mas não consta que alguma dessas estruturas seja posta em causa pela construção da Barragem. Infelizmente estão a degradar-se e vão certamente acabar por desaparecer, com ou sem barragem. Basta olhar para Santa Cruz da Vilariça (que até fica a jusante da zona prevista para a construção do muro da barragem) para perceber do que estamos a falar. Mas também poderemos referir Cabreira, Picões, ou o castro/castelo da Marruça, em Parada, todos no concelho de Alfândega da Fé e todos igualmente bem acima da cota de inundação da albufeira da barragem, mas completamente abandonados.

 

“Silhade” e o Santo Antão da Barca (para além do casario de quatro ou cinco quintas) serão inundados pela albufeira da barragem?

 

Sem dúvida nenhuma que estes dois locais serão inundados pela albufeira, qualquer que seja a opção de cota máxima do muro da barragem.

 

Mas o que foi e o que é hoje “Silhade”?

Actualmente utiliza-se o nome “Cilhades”, mas eu prefiro a designação antiga, por estar mais ligada ao que pode ter dado a origem do nome. De facto, a população da zona também se refere a “Silhares”, ou seja, a pedra (de xisto, neste caso) com que se constroem as habitações. Foi um pequeno povoado que cresceu em função de uma das passagens de uma margem para a outra do rio, muito embora se possa considerar ser muito mais antigo, podendo relacionar-se o seu povoamento com outros que existem na zona, datados genericamente como proto-históricos. Mas esta hipótese é válida para a maior parte das aldeias da zona. A barca de “Silhade” está identificada no relatório de Columbano Pinto Ribeiro de Castro (1796) como uma das que pertencia à Coroa, com um rendimento já então muito baixo, de 2:400 reis (a do Pocinho apresentava 400:000 e a do Côa 50:000), denotando não apenas o fraco movimento, como um certo declínio do povoado.

 O que é “Silhade” actualmente? Um monte de ruínas a que nunca ninguém prestou atenção (muito recentemente o IPPAR pretendeu classificar o local, vá-se lá saber por que motivo e porquê só agora!). Não possuiu nenhuma construção digna de registo e que não seja igual a milhares de outras que existem em todas as aldeias desta zona. Não tinha sequer igreja, apenas uma pequena capela que tudo indica seja uma construção mais recente. Enfim, será que “Silhade” tem um valor patrimonial assim tão importante que justifique impedir a construção de uma barragem? Nesse caso, desfaçam a do Alqueva e dêem novamente vida à aldeia da Luz, desfaçam a de Vilarinho das Furnas e dêem vida à aldeia e por aí adiante. Comprem umas candeias, se não souberem o que é ainda se compram por aqui e também ainda há azeite (seria um desperdício, é certo) para que possam dar luz!

Não, “Silhades” não passa de um local no meio de uma zona abandonada, junto às margens de um rio silencioso de vida, cujas margens já ninguém semeia nem limpa, onde os canaviais apodrecem porque já não têm serventia e actualmente nem os pastores por ali pernoitam. A única coisa que por ali ainda abunda é o barbo e a boga, graças a mais uma invenção humana construída em pedra e agora consolidada em betão e encimada com uma pequena ponte, que permite reter alguma água durante o Verão e também fazer a passagem de um lado para o outro. Mas peixe é o que não faltará se construírem a barragem!

 

E quanto ao Santo Antão da Barca? Será igualmente inundado na eventualidade de se construir a barragem. Isso é uma certeza. Mas do que estamos a falar?

 

Trata-se de outro povoado com uma origem semelhante a “Silhade”, ou seja, como o nome indica, ligada a outra travessia do rio. Não aparece mencionada no documento que referimos anteriormente, o que não quer dizer que não existisse.

Quanto a nós é mesmo um elemento patrimonial muito mais importante do que “Silhade”. No entanto, ao contrário do que alguns defendem, para nós o Santo Antão da Barca tradicional já deixou de existir há muito tempo. Verdadeiramente só resta a capela, cujas dimensões nos permitem dar-lhe a designação de igreja e um outro elemento que não entendemos por que razão não é mencionado por ninguém e que é certamente o mais antigo de todos: a fonte de mergulho.

A fonte de mergulho do Santo Antão da Barca tem dois significados importantes: o primeiro é que desde tempos muito antigos as populações entendiam que a água do rio não era boa para consumo; o segundo é que o povoado deve ter chegado a ter uma população significativa ao ponto de ter investido na construção de uma fonte com aquelas dimensões, facto que ainda hoje se pode igualmente constatar pelas construções existentes e pelas ruínas e vestígios de outras. Neste aspecto estamos em crer que o povoado do Santo Antão da Barca (ignoramos se este seria o nome) foi mesmo mais importante que o de “Silhade”, até porque a designação de quinta é um erro. O Santo Antão da Barca nunca foi propriedade privada, tendo até uma das mais antigas confrarias do distrito.

 Mas o que é hoje o Santo Antão da Barca? Um espaço que foi objecto das mais variadas intervenções, algumas delas perfeitamente aberrantes. Na zona até um enorme pavilhão de madeira ficou abandonado; destinava-se aos balneários de uma praia fluvial que o Instituto de Água não legalizou devido à má qualidade de água do rio. Quem diria que um rio “selvagem” tinha destes problemas! Principal motivo? O fraco caudal durante a maior parte do ano. Portanto, lá se vai o turismo de natureza, a não ser, claro, que também seja “selvagem”.

No entanto as transformações do local não se ficam por aqui. Ao longo dos tempos as construções à volta da capela foram crescendo de forma desordenada e sem qualquer preocupação arquitectónica. Há cerca de uma dezena de anos a Câmara Municipal promoveu uma intervenção na única parte original do complexo religioso e na fonte de mergulho. Neste momento a única estrutura original é a igreja. Já agora, diga-se que se a Autarquia não tivesse efectuado a referida intervenção (a única que tem qualidade arquitectónica) o que lá existia, fonte incluída, estaria agora no chão, tal era o estado de abandono a que o local foi votado.

Assim sendo e excluindo o património sentimental e psicológico do local, sobretudo ainda muito presente na população de Parada, o que ali existe com algum valor é a igreja, não propriamente o edifício, que é uma construção simples em xisto vulgar e com pouco granito, mas o seu interior, nomeadamente o altar-mor, as imagens e parte do tecto. Tudo isso pode ser recuperado e colocado noutro local, possivelmente com melhores condições para a realização da festa que ainda se faz todos os anos, no último fim-de-semana de Setembro. A própria população de Parada já percebeu isso e não teve grandes dúvidas em escolher o local para a construção do novo santuário. As recordações dos tempos de infância à borda do rio e as actuais “peixadas” podem ser muito importantes, mas a falta de água para a agricultura continua a falar mais alto.

Do resto do casario nem vale a pena falar. A intervenção da Câmara Municipal no local e a perspectiva de funcionamento da praia fluvial, primeiro e a possibilidade de construção da barragem depois, criaram algumas expectativas em alguns proprietários, que se apressaram a remodelar ou construir praticamente de raiz algumas habitações, tudo isto à revelia do património envolvente e clandestinamente em relação à legislação.

Custa aceitar esta estranha realidade, mas a verdade é que sem a barragem o Santo Antão da Barca está condenado a desaparecer. A barragem permitirá a construção de uma nova infra-estrutura que poderá manter viva a “alma” e o imaginário daquele local, ganhando-se em espaços mais adequados para o turismo. Na prática, o que lá existe actualmente são infra-estruturas de construção recente completamente degradadas, incluindo as que a Autarquia construiu, um acesso que não será tão cedo melhorado e uma zona envolvente abandonada, desertificada ou povoada de plantações de eucaliptos, circunstâncias que não são certamente um atractivo para os amantes da natureza. Pior do que tudo isso, um rio que não garante sequer água para se poder tomar banho no Verão.

Conheço o Santo Antão da Barca há cerca de trinta anos. Assisti à sua agonia e às tentativas para o salvar. Conheço as pessoas, incluindo aquele que foi o último ermitão, que ainda é vivo e conservo isto tudo em registos fotográficos efectuados ao longo dos últimos quinze anos. Tenho, por isso, justificadas dúvidas que a maior parte das pessoas que se têm referido ao Santo Antão da Barca saibam do que estão a falar. Mais uma vez, para confirmar o que digo, consultem “Sabor Amargo” e olhem bem para a fotografia que ali se apresenta. Os autores confundiram o Santuário de Santo Antão da Barca com “Silhades”… deve ser porque conhecem bem aquilo de que falam!

 

ACERCA DO PATRIMÓNIO NATURAL DO BAIXO SABOR

 

Poderá afirmar-se que o património ecológico do vale do Baixo Sabor se desenvolveu fora do contexto da intervenção humana? Que espaços não foram intervencionados pelo Homem, pelo menos ao longo dos três últimos séculos? Então não deveremos concluir que o desaparecimento da acção humana, que se tem verificado de forma cada vez mais acentuada nos últimos vinte anos não resultará, também ela, numa alteração irremediável dos habitats animais e vegetais?

Como pensam os ambientalistas manter o “valor único e insubstituível” do vale do Baixo Sabor? Sem a acção dos homens que o criaram? Com visitas de estudo para contemplar uma Natureza que certamente se transformará graças ao abandono humano, mas deixará de ser o que hoje é?

Algumas das afirmações que se têm feito sobre o valor ecológico do vale do Baixo Sabor não passam de mentiras premeditadas para intoxicar uma opinião pública específica, a dos grandes centros urbanos, constituída essencialmente por pessoas que nem sabem onde fica a região de que falam os ambientalistas (muitos deles também não!) não percebem nada de agricultura e pensam que em Trás-os-Montes os lobos ainda se passeiam pelas aldeias.

Vejamos algumas dessas mentiras e mais uma vez fica o desafio a quem achar que conhece melhor do que eu esta zona que venha cá desmentir-me. São todas tiradas das afirmações da chamada “Plataforma Sabor Livre” e os sublinhados são da minha responsabilidade

 

1ª mentira: “(…) paira sobre este santuário natural o peso da possível decisão de construção de uma grande barragem no seu troço inferior, que submergirá cerca de 50% da extensão nacional do rio.”

Ora aqui está uma afirmação completamente absurda. É certo que a albufeira da Barragem do Baixo Sabor teria dimensões apreciáveis quando comparada com outras barragens da região, nomeadamente as do Douro. Mas nada que se compare com os tais 50%, pois dessa forma, do muro da barragem até ao final da albufeira teríamos de percorrer cerca de 50 quilómetros.

 

2ª mentira: “Nesta área ocorre uma flora e vegetação de características ímpares em Portugal, onde se destacam as particulares comunidades associadas aos leitos de cheias.”

Se isto não é mentir, o que será então? Dêem um só nome de uma espécie de flora que não exista noutro lugar do território nacional!

Como muitos pseudo-ambientalistas fazem questão de se escudar nas generalidades quando lhes faltam os argumentos credíveis, ou se ficam pelas designações latinas para que a generalidade das pessoas não saiba do que se está a falar, vou tentar ajudar o leitor com uma indicação mais precisa (apesar de este campo não ser especialidade minha).

As espécies de que se fala são as seguintes e a colocação do texto em português é da minha responsabilidade:

Allium roseum - Alho rosado; Andryala ragusina - é uma planta da família das Asteraceae, tipo malmequer do campo; Buxus sempervirens – Buxo; Dactylorhiza markusi – orquídea do campo; Phillyrea media arbusto – desconheço se existe nome local; Petrorrhagia saxifraga – não encontrei descrição; Malcolmia triloba subsp. Patula – flor silvestre - desconheço se existe nome local; Silena cónica – flor silvestredesconheço se existe nome local; Erodium aethiopicum – existem 319 espécies desta planta, também uma flor silvestre, mas não consegui nenhuma imagem desta, mas na zona existem outras; Piptatherum paradoxum – é uma gramínea, vulgar em toda a parte nesta zona; Centaurea ornata subsp. Interrupta – supomos que se refere ao Cardo, esta é pelo menos a planta mais comum das muitas desta espécie; Pulicaria vulgaris - é uma flor do tipo malmequer do campo, mas com as pétalas mais pequenas; Pistorina hispânica – é um pequeno cacto, vulgar na zona; Quercus coccifera – é o mais que vulgar Carrasco (carrasqueiras) de toda esta região e nem sequer se dá lá muito bem junto dos cursos de água…; Arabis alpina - é uma flor silvestre, igualmente comum na região; Clematis campaniflora – não encontrei descrição; Carduus lusitanus subsp. Lusitanus – é outro tipo de Cardo espinhoso, ou bravo; e Rosmarinus officinalis – é o Alecrim e incluir nesta lista um arbusto tão vulgar é um absurdo.

Afinal, o que podemos concluir desta lista de espécies tidas como tão importantes ao ponto de servirem de justificação ambiental para que a barragem não se construa?

Em primeiro lugar, nenhuma destas plantas é exclusiva do vale do Sabor, pois encontram-se em muitas outras zonas dos três concelhos em causa (Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Mogadouro). O mesmo acontece um pouco por todo o distrito e se alguém duvida que venha cá com calma visitar o Parque Natural de Montesinho ou o do Douro Internacional.

Em segundo lugar, muitas das plantas referidas existem em muito maior quantidade fora desta área, por exemplo as carrasqueiras, os vários tipos de flores silvestres e o rosmaninho.

Por que razão se insiste tanto em fazer crer que estas espécies estão apenas associadas ao vale do Baixo Sabor e, ao que parece, exactamente à zona da albufeira da barragem?!

A mentira que a seguir se descreve talvez nos ajude a compreender essa razão.

 

3ª mentira: “No vale do Sabor surgem também os mais extensos e bem conservados azinhais e sobreirais de Trás-os-Montes (…).

 Esta é uma mentira do mais grosseiro que se pode imaginar. A azinheira surge sempre associada com o sobreiro, ou vice-versa e não se dá nas encostas mais íngremes do Sabor. Podemos afirmar que da zona das Laranjeiras (onde era suposto construir-se o muro) até à ponte de Remondes, mais de 80% destas duas espécies ali existentes não seriam sacrificadas pela albufeira. De resto, muitos dos terrenos aptos para estas espécies foram já ocupados por eucaliptos. Mas o mais interessante é constatar que, por exemplo no concelho de Alfândega da Fé, cujos limites são feitos pelo rio, numa extensão com mais de dez quilómetros, entre o Cabeço do Coto (freguesia de Ferradosa) e a Ribeira do Vale da Barca (freguesia de Vilarchão), o vale do Sabor, abaixo da cota 300 não representa mais do que 2% destas duas espécies. Os maiores sobreirais, aliás, localizam-se bem longe do vale do Sabor, nomeadamente nas freguesias de Saldonha, Agrobom, Alfândega da Fé e Pombal.

Como se vê, os maiores azinhais e sobreirais dos três concelhos envolvidos nem ficam na zona do vale do Baixo Sabor e quanto a Trás-os-Montes, que é uma unidade geográfica de dimensão apreciável à escala nacional, poderemos apenas informar os menos conhecedores de que considerando apenas a Terra Quente (concelhos de Alfândega da Fé, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Mirandela e Macedo de Cavaleiros), a maior mata de sobreiros e também de azinheiras se encontra no Romeu, concelho de Mirandela!

 

4ª mentira: “Ao longo do rio Sabor ocorre uma importante comunidade de aves rupícolas, donde se destaca a presença de espécies como a águia de Bonelli, a águia-real, o abutre do Egipto e a cegonha-preta, facto que motivou a sua inclusão numa Zona de Protecção Especial (ZPE) e numa IBA (Important Bird Area, BirdLife International)”

Confundir todo o vale do rio Sabor com a zona do vale do Baixo Sabor tem sido uma das estratégias utilizadas por aqueles que pretendem ampliar desmesuradamente os prejuízos ambientais da construção da barragem. Os prejuízos ambientais existirão, como é evidente, mas importa quantificar com rigor a sua dimensão imputando à construção da barragem apenas os que resultariam dessa decisão.

 

O caso das aves rupícolas é um bom exemplo para perceber esta complexa situação.

As populações vizinhas do vale do Baixo Sabor não conhecem, por exemplo, a cegonha-preta. Isto é, no mínimo, estranho, pois essas são as pessoas que melhor conhecem o espaço geográfico e o seu ambiente. Podem não saber os nomes científicos das coisas, mas o seu saber empírico não faz delas uma “cambada” de ignorantes. E uma cegonha-preta não é “bicho que passe despercebido”, como nos disseram muitos daqueles que temos contactado ao longo dos últimos anos. A razão deste desconhecimento pode ser explicada se dissermos o que os ambientalistas não disseram: em 1997 (ver hiperligação anterior) estavam identificados apenas 3 a 4 casais reprodutores nos vales dos rios Sabor e Maçãs. Ninguém especifica a localização de nidificação (até percebemos isso), mas também ninguém se atreveu a garantir que existe algum local de nidificação da cegonha-preta no vale do Baixo Sabor.

Já não diremos o mesmo para o caso da águia de Bonelli e para a águia-real. Estas espécies são conhecidas na zona, ainda que nas últimas duas décadas só muito ocasionalmente tenham sido vistas em locais que, todavia, ficariam sempre suficientemente distantes da proximidade da água da albufeira da barragem.

Outro exemplo é o abutre do Egipto, também desconhecido das populações do Baixo Sabor. Ocasionalmente, pode ser observado noutros locais, mas o seu aparecimento é muito remoto e normalmente são aves destes parques que temporariamente abandonam o seu território, voltando depois aos locais de origem. Poucos são os animais avistados que não pertencem a estes grupos”. Esta citação (ver hiperligação anterior) explica aquele desconhecimento. Se acrescentarmos, usando a mesma fonte, que a maior colónia vive no Parque Natural do Douro Internacional e outra no Parque Natural do Tejo Internacional, sendo interessante constatar que em ambos os casos existem várias barragens!

 

5ª mentira: “O Vale do Sabor constitui um importante refúgio e corredor ecológico para uma comunidade faunística muito diversificada, onde se salientam espécies como o lobo, o corço, o gato-bravo, a toupeira-de-água e a lontra, e representa o principal local de desova e alevinagem da comunidade piscícola de uma vasta área (desde o Sabor até à albufeira da Valeira no Douro)”.

Mais uma vez, confunde-se o todo com a parte. Ou seja, fala-se de todo o vale do Sabor e não apenas da parte que aqui interessa. Só assim se compreende que sejam feitas afirmações como estas, nomeadamente acerca dos refúgios e corredores ecológicos de espécies como o Lobo e o Corço. Se estas espécies já nem sequer se vêem com facilidade (a não ser que sejam feitos repovoamentos) nas áreas das serras de Bornes e do Reboredo, o seu habitat natural e não os vales quentes e secos como o Baixo Sabor, como podem fazer-se afirmações destas? Mesmo o gato-bravo, hoje só já se vê e raramente, próximo dos povoados. Fora dessas áreas de que podem eles alimentar-se se até os coelhos, lebres e perdizes selvagens (exceptuemos os repovoamentos de “aviário” que as associativas de caça fazem e que são “consumidos” em cada temporada dessa prática designada desportiva) são já uma raridade? E por que são uma raridade, estas espécies antigamente comuns, como o era a cegonha vulgar, a raposa (estranhamente não se fala delas) e o lobo? Será porque se construíram barragens, ou antes porque deixou de se exercer a acção do Homem nos campos e nas hortas?

A lontra de água é outro exemplo. Há quase duas dezenas de anos vi uma, morta por um caçador clandestino. Consegui apurar o local (zona da Quinta Branca) e pude comprovar que no local ainda existiam pelo menos mais três casais. Nos últimos cinco anos não vi naquela mesma zona um só exemplar. Será que ninguém percebe o que está a acontecer, com ou sem barragem?

As toupeiras de água também são referidas. Elas eram frequentes no tempo em que as margens dos cursos de água eram cultivadas, sobretudo com a horticultura. Isso praticamente acabou. Hoje há mais toupeiras de água no curso médio e superior da Ribeira de Zacarias do que no próprio Sabor.

 

A BARRAGEM RESOLVE O PROBLEMA DE DESENVOLVIMENTO DO BAIXO SABOR?

 

Comecei por afirmar que sou a favor da construção da barragem mas que tal circunstância não faz de mim um fundamentalistas dessa causa. Como vivo e resisto nestas paragens, quero apenas perceber com clareza o que está em causa e se os contra forem mais fortes do que os prós não tenho qualquer dúvida em considerar que os primeiros são mais importantes para o desenvolvimento desta zona do país. Só que não basta dizer sim senhor, isto é mais importante do que aquilo. É necessário ir mais longe e dizer antes, com isto é possível construir aquilo e isso significa riqueza e desenvolvimento.

Para mim a questão central é mesmo esta: o que é mais importante para produzir riqueza e desenvolver a minha terra? É que eu e os meus conterrâneos não vivemos apenas do ar que respiramos, nem da paisagem, nem das aves migratórias ou autóctones, das gravuras e dos castros, se não nos forem dadas condições para mostrar isso a outra gente, que venha, que consuma, que deixe dinheiro, que potencie investimentos que gerem empregos e garantam a fixação da população, que alarguem o mercado local e abram portas a outros mercados onde a qualidade e excelência dos nossos produtos possa competir com a massificação e os produtos baratos mas sem qualidade. O desenvolvimento é isto. E se assim não é voltem lá aos tais países desenvolvidos que dizem que a produção de energia hidroeléctrica não é limpa e perguntem em que moldes estabelecem o equilíbrio entre a Natureza e o Homem para serem economicamente desenvolvidos.

Mas voltemos à barragem. Será que este empreendimento resolve o problema de desenvolvimento do Baixo Sabor ou se quiserem, do sul do distrito de Bragança?

Parece-me que ninguém de boa-fé poderá afirmar categoricamente que sim. Aliás, como é que uma só obra poderia resolver um problema tão difícil?

 

Coloquemos antes a questão ao contrário: sem a Barragem do Baixo Sabor haverá solução para o desenvolvimento desta região?

 

O que eu penso é que esta Barragem garante mais desenvolvimento do que tudo quanto se pretende potenciar em termos patrimoniais e ambientais. A barragem é uma peça num puzzle complicado, mas não pode ser substituída tão facilmente como se pensa.

 

O que ganhará a agricultura local com a barragem?

 

A região mais directamente abrangida pela albufeira da barragem vive sobretudo da agricultura, mas as encostas do Sabor cada vez são menos cultivadas e os terrenos estão a ficar abandonados, degradando-se, perdendo fauna e flora e transformando-se em montes que ciclicamente ardem, o que acarreta ainda maiores prejuízos ambientais. A barragem inundaria muitos dos terrenos que já não estão a ser utilizados agricolamente (sendo certo que faria o mesmo a alguns com boas aptidões agrícolas, nomeadamente nas margens, mas também quase todos abandonados) elevando a cota das explorações agrícolas e aproximando as possibilidades de regadio às áreas de planalto, que são hoje as mais utilizadas. As chamadas arribas do Sabor não têm qualquer viabilidade numa agricultura competitiva como a que a região tem de desenvolver, mas as zonas de cotas superiores a 350 metros, porque mais planas, têm essa possibilidade, acrescida se dispuserem de água.

Mesmo pondo de parte a questão estratégica nacional desta reserva de água e a produção energética (ainda que admitindo a pequena percentagem que significará em termos nacionais) a barragem pode resolver, de vez, o regadio de todo, ou da maior parte do Vale da Vilariça, evitando a construção de inúmeras pequenas albufeiras para garantir a utilização intensiva destas terras. A questão do Vale da Vilariça não tem sido devidamente equacionada como meio para justificar a construção desta Barragem e não se percebe porquê. Pensa-se em rasgar o vale com um IP(2) e ninguém se preocupa, mas todos fazem ouvidos moucos ao desperdício económico de vários quilómetros quadrados dos melhores terrenos agrícolas do país ocupados com olival envelhecido, com floresta de espécies exóticas, entre as quais o eucalipto e com terrenos simplesmente incultos, entre outros aspectos negativos.

Do meu ponto de vista, a agricultura do Baixo Sabor é o sector económico que mais beneficiado sairá com a construção da Barragem. Os terrenos próximos da albufeira serão novamente trabalhados e aumentarão significativamente a produção agrícola destes concelhos. O vale da Vilariça pode ganhar uma nova dinâmica agrícola, o que resultaria num benefício regional e nacional. A construção da barragem e o alargamento da área de regadio pode transformar-se num importante factor de relançamento do sector agrícola, ainda que este fenómeno não esgote as medidas que é necessário tomar para a revitalização deste segmento fundamental da economia da região.

 

Em que medida o clima do vale do Baixo Sabor poderá ser alterado e que consequências daí poderão advir?

 

A construção desta barragem, devido ao volume de água a armazenar e à área da albufeira, provocará certamente alterações climáticas, sobretudo na área envolvente. Este é outro dos problemas que os ambientalistas evitam referir, fundamentalmente porque falar dele exige obrigatoriamente estudos rigorosos e discutir o assunto não se presta a generalidades. Eu também não tenho respostas para esta questão. Não sei se essas alterações climáticas são ou não benéficas.

O que eu sei, como toda a gente, é que o clima da região tende cada vez mais a caracterizar-se por grandes amplitudes térmicas. A diminuição dessas amplitudes térmicas teria efeitos benéficos para a maior parte das produções agrícolas, nomeadamente o amendoal, mas também para o olival, toda a fruticultura e horticultura.

É certo que as grandes barragens provocam mais dias de nevoeiro e menos exposição solar. São outros dados que importaria analisar, assim como o efeito destas alterações na fauna e na flora. As perdas e os ganhos também têm de ser contabilizados nesta perspectiva. As barragens do Douro provocaram alterações ambientais significativas, mas isso também deu origem a novos eco-sistemas locais que hoje já são tidos como património e passaram apenas umas dezenas de anos!

É claro que as Barragens têm uma certa duração. Mas o que é que é eterno? A natureza transformou-se a si mesma muito antes da intervenção do Homem e não vai deixar de o fazer, por vezes de forma violenta. Nesta perspectiva, poderíamos concluir que se o Homem abandonar os campos que conquistou à Natureza para desenvolver a agricultura eles voltam a desempenhar o seu papel inicial. É a velha história da Arca de Noé. Mas não é verdade. Nada fica igual, tudo se transforma.

Recordo aqui uma frase interessante do Dicionário do Céptico, a propósito da decisão de Deus sobre o dilúvio e da salvação de alguns (humanos e animais): “Ninguém pode estar certo do que é que os outros consideram correcto. Ou seja, um grupo de correctos contra outro grupo de correctos, geração após geração. É de admirar como tantos de nós escapamos.”

 

Que outras vantagens trará a barragem para o desenvolvimento da região do Baixo Sabor?

 

A construção de um empreendimento desta envergadura, para além do movimento gerado pelas próprias obras, obriga os poderes públicos (políticos incluídos) a olhar com mais atenção e de forma mais regular para os problemas de desenvolvimento da zona em questão. Este é um argumento forte para defender a barragem, sobretudo para aqueles que aqui vivem e para os que gostavam de aqui viver, mas não têm essa possibilidade.

Também não concordamos com a leitura xenófoba dos que afirmam que nem os trabalhadores a utilizar na construção da barragem serão da zona. Pois é, infelizmente e em boa parte graças a todos os entraves de desenvolvimento a que temos sido sujeitos, incluindo os que advêm dos fundamentalismos ambientalistas, já nem pessoas temos para construir uma barragem com essa dimensão. Mas a história recente prova que os empreendimentos de algum vulto deixam sempre mais-valias na zona. Veja-se o caso das pequenas barragens que têm sido construídas, ou a ponte Sardão-Meirinhos e respectivos acessos. Esta última obra, por exemplo, não só utilizou alguma mão-de-obra local como movimentou estabelecimentos de hotelaria e restauração e deu algum trabalho a pequenas empresas da zona. As obras de construção da barragem do Baixo Sabor não deixarão, por isso, de deixar também importantes mais-valias.

Mas a sua construção será também um factor importante para resolver de vez alguns dos mais graves problemas de acessibilidades do sul do distrito de Bragança, reforçando os argumentos da imprescindibilidade da conclusão do IP2 e do IC5, para além da obrigatoriedade de se pensar numa via de qualidade para a ligação Moncorvo-Mogadouro (E.N. 220 e 221).

 

Que perspectivas de desenvolvimento turístico podem resultar da barragem do Baixo Sabor?

 

Aqui está um aspecto que motiva uma interessante discussão. O que terá mais viabilidade e sucesso sócio-cultural e económico? Um rio Sabor sem, ou com a barragem?

Na minha modesta opinião, na situação actual a ideia de turismo associada ao suposto património cultural e ambiental do baixo Sabor é uma utopia. Nem os governos, nem as autarquias, ou os privados investirão no vale do baixo Sabor em nome daqueles valores, porque para lá das boas intenções de alguns amantes da natureza há uma realidade muito objectiva que não pode ser ignorada ou escamoteada: o turismo só se desenvolve com infra-estruturas de qualidade e estas só se constroem nos locais onde existam atractivos diversificados que garantam a presença de pessoas em número suficiente para as rentabilizar.

Se quisermos olhar para dois ou três exemplos da situação actual é fácil de perceber o que acabamos de dizer:

1º exemplo: a “praia fluvial” da ponte do Sabor (junto à Portela, a caminho de Torre de Moncorvo). Será este exemplo o turismo de qualidade que pretendemos para a região? Uma zona balnear “selvagem”, sem qualquer tipo de condições, que apenas atrai algumas pessoas menos informadas dos riscos de saúde que correm em frequentar estes locais? E será que alguma entidade acredita verdadeiramente que vale a pena fazer investimentos numa zona onde em anos como o que está a decorrer nem sequer havia água no rio?

2º exemplo: o Santo Antão da Barca (no concelho de Alfândega da Fé). A Câmara Municipal fez ali importantes investimentos em infra-estruturas que garantiam segurança e qualidade de alojamento. Uma obra efectuada antes desta última vaga de discussões acerca da construção da Barragem. O acesso foi melhorado, mas manteve-se em terra batida, não se interferindo no meio ambiente com a habitual colocação de asfalto. O Santo Antão da Barca ficou assim com excelentes condições para o tal turismo de natureza e quantos desses turistas lá vimos? Zero, meus senhores! Ainda não se tinham lembrado do Sabor e a maior parte deles não fazia (nem faz ainda) a menor ideia do que era o Santo Antão da Barca. Quem utilizou aquelas instalações? Umas dezenas de locais e de amigos próximos vindos da “cidade” a propósito de comerem uns peixes do rio e beberem uns copos de vinho, até porque a instituição que ficou a gerir as instalações (Comissão Fabriqueira) alugava aquilo muito barato.

Para além destas esporádicas utilizações, as mesmas serviram para os trabalhadores das empresas que construíram a ponte Sardão-Meirinhos. A praia fluvial que se chegou a projectar para criar um interesse maior pelo local não foi aprovada, já expliquei porquê. As referidas instalações estão hoje degradadas e praticamente ao abandono. Resultado final: turismo zero, ambiente zero.

3º exemplo: a “praia fluvial” da ponte de Remondes (na E.N. 216, a caminho de Mogadouro). Não vale a pena fazer a descrição. O que ali se passa é igual ao 1º exemplo. No final de cada Verão o que ali fica é lixo.

Como pode ver-se, não basta ter natureza e paisagens bonitas, muitos animais e plantas raras para se falar de turismo da natureza. Mesmo quando há condições ao nível das infra-estruturas ele não se desenvolve por artes mágicas. É que o vale do Baixo Sabor fica, como por aqui se diz, “no fim do mundo” e não são muitos os que têm motivação e se atrevem a pegar na mochila e dar uma volta por aquelas paragens. Este turismo espontâneo, mas esporádico, pode ser muito interessante para alguns fundamentalistas ambientais, mas não contribuiu minimamente para o desenvolvimento e a melhoria de condições de vida dos habitantes locais, que são os proprietários do território, porque isto não é nenhuma terra de ninguém!

 

E a Barragem? Que turismo poderá potenciar?

 

Eu já referi que, do meu ponto de vista, o sector económico que a barragem mais poderá potenciar é a agricultura. Não acredito, como alguns, no milagre do turismo à volta de um grande charco de água. Certamente que esta minha descrença não advém de questões ridículas como aquela de que a subida e descida das águas inviabilizará qualquer empreendimento turístico associado à barragem. Toda a gente sabe que existem hoje soluções técnicas para essa circunstãncia, pelo que esse pormenor, podendo ser um inconveniente, não é um obstáculo definitivo. Aliás, a albufeira da barragem iria criar algumas ilhas interessantes para a construção de equipamentos turísticos.

Eu estou certo de que a barragem motivará a vinda de muita mais gente do que a situação actual, ou a futura com base na actual. Gente interessada na caça e na pesca e nos desportos naúticos, ou simplesmente num passeio guiado à volta da albufeira, como sucede noutras zonas e noutros países. Mas também gente interessada em ter acessos e condições para conhecer o muito que fica ainda do actual meio ambiente e daquele que a própria barragem certamente irá desenvolver. O acesso ao vale do Baixo Sabor faz-se hoje através de uns poucos caminhos rurais, alguns só possíveis de utilizar com viaturas TT e mesmo assim com fortes condicionantes sempre que chove um pouco mais. O acesso à albufeira da barragem poderia ser planeado através de um estradão marginal (não defendemos muito a ideia do asfalto) com condições de circulação para todo o tipo de meios de transporte durante todo o ano.

Não tenho grandes dúvidas de que as Autarquias, Câmaras Municipais, mas também Juntas de Freguesia, veriam na barragem um elemento fundamental para o desenvolvimento dos seus territórios e se esforçariam por implementar iniciativas nesse sentido. O que eu tenho dúvidas é que, se tudo isso vier a acontecer, decorra de uma estratégia planificada de desenvolvimento e não da falsa ilusão de um turismo de massas que não é propriamente o que nos interessa na região.

De resto, para terminar esta minha visão acerca do turismo, com ou sem barragem, eu não consigo entender que este venha a constituir um importante motor de desenvolvimento destes concelhos sem uma ligação a outros aspectos, como os produtos agrícolas, os fenómenos culturais e o património, seja ele construído ou natural. Mas também não acredito que neste contexto o Sabor sem a barragem acrescente alguma coisa ao processo.

 

Este texto não era para ser tão longo. Mas acabou por se transformar numa reflexão pessoal mais aprofundada sobre esta problemática.

Termino como comecei. Sou a favor, mas não sou fundamentalista. Mas não posso deixar de constatar que hoje já é evidente que as populações e os interesses públicos e privados viraram as costas ao rio Sabor. A barragem poderá inverter esta tendência. Se ela não se fizer aquela zona vai transformar-se num deserto inútil, pelo menos do ponto de vista económico. A população das nossas aldeias continuará a diminuir a daqui a uma ou duas dezenas de anos já não estaremos a falar de “Silhades” ou do Santo Antão da Barca, ou de Santo André, mas de outras aldeias que se “apagam”, como já está a acontecer com as escolas primárias. A barragem pode também ajudar a inverter esta tendência e, ao fim e ao cabo, ajudar afinal a preservar a espécie mais ameaçada da zona: o Homem!

 
F. Lopes, 4 de Dezembro de 2005
 
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Barragem do Baixo Sabor: o que pode melhorar?