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José Saramago O Problema será apenas Caim? Estou simplesmente estupefacto com a polémica teológico-literária que se levantou com a publicação da última obra de José Saramago. Não consigo perceber como é que tanta gente parece não compreender, ou parece ignorar, uma questão tão simples como esta: o confronto entre o Homem, neste caso o escritor, e Deus, é possivelmente tão antigo quanto o conceito da própria literatura.
Não sendo nem teólogo, nem crítico literário, sou, no entanto, uma pessoa que lê bastante e textos diversos, desde os científicos aos literários. Para além das leituras sobre História, que são obrigatórias por razões profissionais, leio um pouco de tudo e de todos os géneros literários, nacionais ou estrangeiros e não seria capaz de dizer qual o escritor de que gosto mais, embora tenha lido toda a obra publicada em português de alguns deles. Não li tudo de Saramago e a última obra, “Caim”, ainda não tive oportunidade de a comprar, mas não demorará e vir juntar-se aos trinta e cinco títulos do autor que já li e possuo na biblioteca familiar (suponho que a obra completa totaliza quarenta títulos, incluindo os cinco volumes de “Cadernos de Lanzarote”, “Discursos de Estocolmo” e “A maior Flor do Mundo”, obra infantil). Dá para perceber que gosto da escrita de Saramago e que faço parte daqueles que sentem orgulho de ter no seu país um escritor desta envergadura e aplaudiram entusiasmados a notícia da atribuição do Nobel da Literatura, embora sempre tenha dito que Miguel Torga foi injustiçado pelo júri norueguês, não em relação a Saramago, naturalmente, mas à também grandiosa obra literária deste transmontano já falecido. Mas seguramente não me passaria pela cabeça dizer que Saramago deveria deixar a nacionalidade Portuguesa! Poderia ainda acrescentar que a minha relação com a escrita de Saramago resultou de uma circunstância curiosa. Em 1986, por altura do meu aniversário, a minha mulher ofereceu-me “A Jangada de Pedra”, quando Saramago era já um nome sonante da literatura nacional, mas para mim, em termos de leitura, ainda um desconhecido. Desconhecido pensava eu, e aqui está a situação curiosa. Quando acabei de ler aquela obra (não me fiquei pelas primeiras páginas…) tive o pressentimento de que já não era a primeira vez que lia qualquer coisa do autor e lá fui procurando nos meus livros se afinal não teria mais título nenhum. E encontrei. Uma peça de teatro que sempre considerei um texto espantoso e que havia comprado em 1980, numa altura em que cá por Alfândega da Fé andava envolvido num projecto de teatro amador que teve curta duração. Trata-se de “A Noite”, obra editada em 1979. Reli a peça de teatro, reli “A Jangada de Pedra” e desatei, o termo é mesmo este, a procurar e a comprar tudo quanto encontrei do autor. Nunca mais deixei de acompanhar a escrita de Saramago e quando dois anos depois (1988) surgiu o Nobel já não tive de correr às livrarias, pois só não possuía as três obras que há muito tempo estavam esgotadas. (“Os poemas possíveis” (1966) “As opiniões que o DL teve” (1974) e “Poética dos cinco sentidos: o Ouvido” (1979). Porém, a intenção deste texto não é falar da minha relação com a escrita de Saramago, mas sim deste ruído em que o próprio autor se envolveu em torno da publicação de “Caim”. Foram ditas coisas pouco simpáticas, pelo autor e pelos outros, não li ainda a obra mas já se sabe que até Saramago reconhece que se excedeu na utilização de algumas palavras, enfim, acho que o folclore foi longe de mais. O que aqui gostaria de deixar é uma reflexão algo diferente acerca de Saramago e de outros escritores portugueses contemporâneos em que este confronto com Deus foi quase uma constante. Por isso não percebo o porquê de tanta celeuma agora, quando Saramago há muito tempo vem levantando o véu e outros antes dele o fizeram também. Será apenas porque utilizou palavras mais directas fora do conteúdo da própria obra? Será porque vivemos num tempo de crise em que a sensibilidade religiosa está mais apurada? Será porque as palavras do escritor foram, de facto, na minha opinião, excessivas e até desnecessárias? Não sei. Mas vamos ao que importa. José Saramago – questionar Deus e a sua obra Como referi inicialmente, não sou crítico literário e este texto não pretende esse estatuto, por isso vou servir-me de algumas ajudas e centrar-me-ei apenas na questão literária, deixando para outros as relações com o texto da Bíblia (que também já li e faz parte da biblioteca caseira) pois nesse campo ainda encontro mais dificuldade de análise. Como primeira ajuda pego num trabalho de qualidade sobre a obra de Saramago que eu gostava de saber quantos daqueles que agora falam do escritor alguma vez leram: “A paixão segundo José Saramago”, de Conceição Madruga (1), por sinal uma nordestina, nossa vizinha de Mogadouro. Pois escreve Conceição Madruga logo no início do seu trabalho: “É este reflectir constante, este questionar permanente de Saramago sobre a linguagem como possibilidade de conhecimento que nos enreda, que nos prende, mas que nos estimula também para o desvendar dos segredos que a sua obra encerra, escrita como se fosse um único livro, uma Bíblia, livro onde a palavra é o Verbo original e criador e, como tal, fonte de explicação do conhecimento. Melhor, o Verbo é o conhecimento, porque é o Mundo”. Do meu ponto de vista só esta citação bastaria para podermos perceber que aqueles que fazem a análise crítica da obra de Saramago há muito que “descobriram” o tal confronto a que me refiro. Um confronto que não tem necessariamente de ser de ódio nem de tentativa de eliminação do Outro. Mas ainda assim uma espécie de batalha silenciosa entre a crença e a descrença, entre o elogio e a acusação. Ora, atrevendo-me eu a afirmar que a Bíblia é um texto literário de representação do Mundo, não será também a Literatura uma representação desse mesmo Mundo? E inevitavelmente estas duas realidades não terão de entrar em conflito? Ou estaremos condenados a aceitá-las como meras ficções? Parece-me que Conceição Madruga tem idêntica opinião quando, referindo-se a “Memorial do Convento” nos esclarece da seguinte forma: “A páginas 115, a palavra revela-se criação, à semelhança da criação do mundo por Deus. Trata-se, aqui, da criação mítica do homem-voador, qual Prometeu que rouba aos deuses o poder do conhecimento” e cita depois o próprio texto Saramago “…porventura uma simples palavra bastará para encher as esferas da máquina voadora, pelo menos Deus não fez mais que falar e tudo com esse pouco se criou…”. Então ninguém se escandalizou quando nestas duas ou três linhas Saramago caracterizou Deus desta forma tão (aparentemente…) simplista e redutora? Talvez tenha passado despercebido de muitos leitores de “O ano da morte de Ricardo Reis” o facto de também nessa obra Saramago fazer uma crítica cerrada à aliança entre a Igreja e o Estado. Quem o recorda é Teresa da Silva: “Ao aproximar Hitler do Padre Eterno ou dizendo que «Portugal é Cristo e Cristo Portugal», o discurso ideológico afasta a possibilidade de julgamento imparcial, dirige tendenciosamente a opinião de um povo fundamentalmente religioso que se sente, por isso mesmo, incapaz de contestar o «Cristo» ou o «Padre Eterno», logo, incapaz de exprimir-se contrário à orientação ideológica que lhe é imposta.” (2) Embora centrando a sua análise na relação entre três obras de Saramago (“Memorial do Convento”, “O ano da morte de Ricardo Reis” e “Levantados do Chão”) e a narrativa histórica, a análise da obra de Teresa Silva revela que a autora também identificou a questão religiosa como tema permanente na obra de Saramago. Posto isto, suponho que já nem será necessário referir “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, mas valerá a pena recordar aqui o que Francisco Viegas escreveu na revista “Ler" nº 43 (1988) a propósito do Nobel atribuído a Saramago e da posição então tomada pela Igreja Romana: “Felizmente que em Portugal é possível encontrar vozes como as de D. José Policarpo ou de D. Januário Torgal Ferreira que, para lá das assumidas diferenças ideológicas, assinalaram o facto com elegância e sensibilidade. D. Januário, aliás, no domingo seguinte, 11 de Outubro, assinou uma notável coluna de opinião, na TSF, onde distinguia com uma correcção insuspeita e claríssima, o papel do Osservatore Romano e o papel dos crentes, estivessem onde estivesse, fossem quem fossem (ou, mesmo, não sendo crentes), defendendo a liberdade de criação, a liberdade do espírito crítico dentro e fora da Igreja. O papel da Igreja, como na altura defendia o bispo auxiliar de Lisboa, não é o de definir directivas de espírito e de censura ou auto-censura – palavras que fazem falta cada vez mais e que deveriam ter sido ditas na altura da publicação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. O que aqui pretendi expressar é que, para além do excesso das palavras mais recentes, que o próprio Saramago já admitiu, a questão verdadeira reside no facto de a obra do escritor há muito tempo não ser bem aceite por certos meios religiosos e por outros políticos e culturais que lhe vão a reboque ou por razões que não se explicam. Mas a intenção deste apontamento era sobretudo outra. Deixar claro que não é difícil encontrar a mesma problemática na obra de outros grandes escritores, mesmo que isso nunca tenha sido motivo de tamanha publicitação na comunicação social. Vejamos apenas dois exemplos: Miguel Torga e José Rodrigues Miguéis. Miguel Torga – o confronto com Deus Em “Diário VI”, Miguel Torga propõe “Um acto de fé na Poesia! (…) Por ela juntar os homens e nunca os separar. Por ela ser o derradeiro pão do espírito. Por ela ser a única vida que não morre. Por ela ser a liberdade”. Esta citação pode parecer gratuita e sem sentido neste momento, mas logo se verá que o assunto é muito mais relevante do que parece à primeira vista. Existem inúmeros trabalhos de análise crítica da obra de Miguel Torga, resultado evidente do impacto que este transmontano teve na literatura portuguesa e internacional. Li com particular atenção dois autores que se debruçaram aprofundadamente sobre a obra de Torga e em particular sobre o seu confronto com Deus, e são esses de que me vou socorrer para demonstrar que a questão está longe de ser exclusiva de Saramago. O primeiro desses autores, Fernão de Magalhães Gonçalves, acompanhou e estudou a obra de Torga durante muitos anos. Natural de Jou, concelho de Murça, tem uma obra própria importante, mas o que agora interessa será naturalmente o que escreveu sobre Torga, que a ele se referiu nos seguintes termos em “Diário XI” (1973): “Coimbra, 4 de Maio de 1971 – Recebi-o cordialmente, como recebo sempre qualquer desconhecido – digam o que disserem as legendas –, a guardar apenas entre nós aquela distância que deixa a cada homem o espaço necessário à sua medida. Além de que era jovem, e é precisamente à juventude que mais procuro respeitar a área de pujança. Mas no meio da conversa contou que no seminário da Ordem que frequentara, num dia de fome literária, conseguira surripiar dos reservados da biblioteca um livro meu, fora apanhado a lê-lo, e o obrigaram a pedir perdão de joelhos a toda a comunidade reunida, com o volume nefando pendurado ao pescoço. E nunca senti um ser humano tão perto de mim. Convidei-o para almoçar, e só não peguei nele ao colo. Tinha a impressão que estava diante da minha própria efígie, depois de penitenciada num auto-de-fé…”. Por aqui se percebe já que também no caso de Miguel Torga a Igreja desde cedo colocou reservas à sua obra. A razão é simples: o discurso teológico de Torga pode não negar a existência de Deus, mas retira-lhe o poder que a Bíblia lhe confere. Por isso Torga escreveu palavras como estas: “Tréguas com Deus. Mas ainda não consegui saber se fui eu que deixei de lutar com ele, se foi ele que deixou de lutar comigo” (“Diário X”- 1968); “Não tenho mais palavras./Gastei-as a negar-te…/(Só a negar-te eu pude combater/O terror de te ver/Em toda a parte)” (Desfecho, in “Câmara Ardente”, 1962). Acerca do poema “Desfecho” diz Fernão Gonçalves: “Portanto, Deus funciona como ameaça e agressão, como agente de «terror»”. (3) Na mesma obra, Fernão Gonçalves acrescenta ainda que “Podemos certamente falar da existência, em Torga, de um culto cósmico, de uma visão do mundo transparente à beleza, à eternidade, à transcendência e à imanência do sagrado. Como um toque de super-realidade que atravessasse a estrutura da realidade. Uma sacralidade que a natureza contém, mas não detém. (…) Com a seguinte diferença. Para o homem religioso (…), o Cosmos está impregnado de sacralidade porque é uma criação divina e, sobretudo, porque Deus, ou os Deuses nele realizaram teofanias ou hierofanias. E o autor do Diário IV diz que «não é preciso que Deus ou a sua Mãe venham cá abaixo»” Numa outra obra de reflexão crítica, Fernão Gonçalves acrescenta que “Segundo a obra de Miguel Torga, a evolução da história humana salda-se, no fundo, no progresso da autoconsciência da liberdade. Sendo que, quanto mais esta autoconsciência define, rectifica e aperfeiçoa o perfil do homem, mais a imagem de Deus se atrofia, distorce e caricaturiza”. (4) Contudo, esta teologia torguiana também pode ser vista noutra perspectiva, como fez António Freire, padre Jesuíta e professor universitário, conhecedor e declarado admirador do homem e da obra: “De facto, para a grande inteligência de Torga só uma Religião detentora da verdade plena poderá colmatar as brechas do agnosticismo e a crise agónica do drama religioso mais tormentosamente vivido. Torga não é homem de meias tintas. Ou abraça a verdade total e lhe aceita as consequências, por inexoráveis que pareçam, ou nunca terá paz (como de facto não tem), porque nunca soube navegar em águas túrbidas. Tem de mergulhar em cheio, consciente e livremente, na fonte límpida da Verdade que de há muito vislumbrou mas que, por orgulho, se recusa a seguir. A alma é profundamente religiosa. Torga não é ateu: é um Orfeu rebelde, mas não anda longe do Reino dos Céus…” (5) Mas até a arte interpretativa de António Freire torna difícil esconder a realidade do pensamento teológico de Torga e por isso, na obra já citada, acaba por referir também “que o poeta não tem por Deus sequer a consideração que tem pelos pais. (…) Como ele próprio confessa, sente-se no direito de tratar Deus de igual para igual, de potestade para potestade.” E com algum desânimo, a António Freire também não passa despercebido o poema “Desfecho” (já Fernão Gonçalves o havia dado como exemplo) referindo-se ao texto com estas palavras: “Por muito boa vontade que se tenha em atenuar os disparates de Torga, em matéria religiosa, não há água benta que lave o poema que intitula «Desfecho»”! Agora sim, vale a pena transcrever aqui o texto de “Desfecho” na íntegra, para que se possa perceber melhor a dimensão do confronto. “Não tenho mais palavras. Gastei-as a negar-te… (Só a negar-te eu pude combater O terror de te ver Em toda a parte). Fosse qual fosse o chão da caminhada, Era certa ao meu lado A divina presença impertinente Do teu vulto calado E paciente… E lutei, como luta um solitário Quando alguém lhe perturba a solidão. Fechado num ouriço de recusas, Soltei a voz, arma que tu não usas, Sempre silencioso na agressão. Mas o tempo moeu na sua mó O joio amargo do que te dizia… Agora somos dois obstinados, Mudos e malogrados, Que apenas vão a par na teimosia” Posto isto, uma questão se impõe: por que razão a obra de Torga nunca foi objecto de polémica religiosa como tem sido a de Saramago? A resposta encontra-se na própria análise de António Freire: “Os Padres que em Camilo e em Aquilino Ribeiro ficam, em geral, mal parados, em Torga, à parte alguns deslizes, gozam de certo respeito e simpatia, com tolerante compreensão para as suas fraquezas. Fruto da tal «lisa naturalidade» e daquele ser «correcto» que Torga diz ser timbre seu!” Possivelmente Saramago terá uma escrita mais “dura” e “menos correcta” para alguns e isso incomoda. Mas na minha opinião o que livrou Torga das polémicas públicas não foi o seu ser “correcto” na escrita mas o facto de ter sido um autor de “relações cortadas” com a sociedade, como diz Fernão Gonçalves, que o caracteriza desta maneira: “Marginal e solitário na vida privada, não dedica livros, não dá autógrafos, proíbe toda a publicidade, não vai a congressos, não dá o nome a associações literárias.” Esta é que me parece ser a verdadeira razão. Mais o facto de que a comunicação social nunca olhou para a obra de Torga como actualmente o faz com a de Saramago. José Rodrigues Miguéis – um neo-realista ousado. Embora seja certo que existem, não tenho, nem li, nenhum trabalho de crítica literária sobre a obra de José Rodrigues Miguéis, particularmente sobre a obra “O Milagre segundo Salomé”, que é a que mais importa para o assunto que venho expondo. A própria obra é hoje um objecto raro. “Um livro maldito. Para alguns, herético. Retirado há muito do circuito comercial das livrarias, descobrimo-lo apenas nos alfarrabistas ou entre as estantes poeirentas do “cemitério dos livros esquecidos” (passo o plágio a Carlos Ruiz de Zafón) de uma Biblioteca Municipal.”, como escreveu Cláudia de Sousa Dias, (6) num texto cuja leitura integral recomendo. Esta obra do neo-realista José Rodrigues Miguéis (na verdade entre o presencismo e o neo-realismo mas com muita independência dos cânones destes dois movimentos) parece ser tão “maldita” que só um ou outro crítico lhe dedicou espaço, embora existam dezenas de trabalho sobre a obra deste autor. Tive a sorte de comprar em 1982 a 2ª edição da Editorial Estampa, num só volume (a 1ª edição, da Editorial Estúdio, de 1975, saiu em dois volumes). Mas o que tem de especial esta obra e por que razão a incluo neste texto? A história passa-se em 1917. É certo que retrata a sociedade da época (1ª República já em fase de declínio, com os primeiros sinais de apelo a um poder forte a despontar…) mas na minha opinião, para além disso está um elemento central que o autor procura, à sua maneira, desmascarar: a questão de Fátima. Para ser mais objectivo e directo, ainda que correndo o risco de eu próprio ser mal interpretado, o que José Rodrigues Miguéis conta em “O Milagre segundo Salomé” é uma história incrível sobre a aparição da Cova da Iria, negando assim, por completo, a verdade religiosa sobre o milagre. Recorro novamente ao texto de Cláudia Dias, que enquadra o problema da seguinte forma: “Por outro lado, os grupos que detém as rédeas do poder não têm quaisquer escrúpulos em servir-se de uma equívoco para produzirem um “milagre” do qual resulta um escandaloso aproveitamento financeiro da ingenuidade e da fé dos simples através do florescimento de inúmeros negócios relacionados com o mesmo “milagre”. De onde resulta o enriquecimento de um poucos comerciantes e a ausência total de investimento e desenvolvimento do sector secundário. Verifica-se, da mesma forma, a inexistência de investimento na educação e de um esforço efectivo no combate à iliteracia. Promove-se, pelo contrário, a religião como analgésico, para esquecer a fome, os magros salários, a carestia geral das condições de vida; como distractor da tensão crescente, sobretudo nas cidades, onde cresce, de dia para dia, a ameaça de uma guerra civil. A solução aparece com a divulgação e promoção de uma Mentira, à escala nacional, com pretextos pretensamente pacificadores e de desenvolvimento financeiro.” José Rodrigues Miguéis é assumidamente anticlerical. Isso está patente na sua obra. Não assumiu de forma tão directa como Saramago e Torga o confronto teológico mas, em contrapartida, a sua obra mais importante nega de forma clara a verdade religiosa sobre Fátima. O livro pode ser hoje raro, mas está escrito e foi lido por muita gente e mesmo nos anos oitenta do século passado não me consta que tivesse dado tanta polémica, nem suscitado tantas reacções como aquelas a que agora assistimos a propósito da publicação de “Caim” de José Saramago. Que conclusão tirar destas discrepâncias de análise, de crítica e de problematização das obras literárias dos nossos escritores? Sinceramente não tenho uma resposta que me satisfaça. Mas sei, todos sabemos, ainda hoje o vimos na televisão, que outros livros são publicados a por em causa os princípios de outras religiões e parece que toda a gente bate palmas, pois são as religiões dos outros. Não será esta atitude um fundamentalismo também?! Ou seja, há bons e maus fundamentalismos? A mim parece-me que qualquer fundamentalismo é contraditório com Democracia… mas deixo essa reflexão no ar e talvez noutra oportunidade se lhe possa dar resposta. Notas: 1-Madruga, Conceição: “A Paixão segundo José Saramago”; Profedições-Campo das Letras; Porto, 1998. 2-Silva, Cristina Teresa Cerdeira da:“José Saramago, entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”; Publicações Dom Quixote; Lisboa, 1989. 3-Gonçalves, Fernão Magalhães: “Sete Meditações sobre Torga”, Coimbra, 1976. 4-Gonçalves, Fernão Magalhães: “Ser e Ler Torga”; Lisboa, 1987. 5-Freire, António: “Lendo Miguel Torga”; Edições Salesianas; Porto, 1990. 6-Dias, Cláudia de Sousa: «“O Milagre segundo Salomé” de José Rodrigues Miguéis» in http://hasempreumlivro.blogspot.com/2008 (consulta de 09/10/25) F. Lopes, 25 de Outubro de 2009 |