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ZECA AFONSO
A música de intervenção como arma política.
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro, filho de José Nepomuceno Afonso, juiz, e de Maria das Dores e morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982.
Em virtude da profissão do seu pai, foi para Angola em 1933, regressando depois a Aveiro em 1936, para logo em 1937 partir para Moçambique, novamente para junto dos pais, regressando no ano seguinte (1938) para Belmonte, onde o tio, Presidente da Câmara Municipal e Salazarista convicto, o obriga a vestir a farda da Mocidade Portuguesa. Em 1940 ingressa no Liceu D. João III, em Coimbra e é logo nesse tempo de estudante liceal que conhece António Portugal e Luís Goes, duas figuras que terão um papel relevante na primeira fase da sua intervenção musical, iniciada na base do fado de Coimbra e das canções estudantis. A sua iniciação na música faz-se em 1945, andava ele no 5º ano do Liceu! Em 1949 entra para a Faculdade de Letras de Coimbra, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas. O início da sua discografia acontece em 1953, com dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, de que hoje não se conhece nenhum exemplar. Em 1963 concluiu o curso superior com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: “Implicações substancialistas na filosofia sartriana”. Nesse mesmo ano iniciará a sua carreira de professor, primeiro no ensino privado (Colégio de Mangualde) e depois no ensino público (Aljustrel, Lagos, Beira-Moçambique e Setúbal) até ser expulso em 1968, por motivos claramente políticos.
A campanha eleitoral de Humberto Delgado, em 1958, será um dos momentos políticos que terá contribuído para chamar definitivamente José Afonso para o campo da resistência ao regime. Nesse mesmo ano faz uma viagem a Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeão Académico de Coimbra, de cujo grupo faz parte José Niza, porventura o amigo que mais o acompanharia ao longo de toda a vida. Em 1962 realiza várias digressões pelo estrangeiro, integrado num grupo de fados e guitarras, de que faziam parte Adriano Correia de Oliveira e José Niza, entre outros. Dois anos depois, em Maio de 64, actua na Sociedade Fraternidade Operária Grandolense e aí se terá inspirado para fazer “Grândola, Vila Morena”, que em 25 de Abril de 1974 seria a senha do MFA para o derrube do regime e se transformaria na música mais conhecida da sua discografia. Em 1967 é publicado o livro Cantares de José Afonso, pela Nova Realidade, de que tenho a sorte de possuir um exemplar dos poucos que ainda circulam pelo país, pois a obra foi distribuída quase clandestinamente. Nesse mesmo ano José Afonso assina contrato com a editora discográfica Orpheu, para quem gravará a maior parte da sua obra, sendo obrigado a gravar um álbum por ano! Logo em 68 edita “Cantares do Andarilho”, com Rui Pato, iniciando-se aqui, verdadeiramente, o seu extraordinário percurso como cantor de intervenção contra a ditadura. A partir desta data, que é também o ano da sua expulsão do ensino, por motivos políticos, como já se referiu, José Afonso inicia uma longa “peregrinação” musical e de intervenção política que em 1973 o conduzirá à prisão, ficando 20 dias em Caxias. Na saída e logo em Dezembro desse mesmo ano, publica o álbum “Venham mais Cinco”, um dos mais notáveis trabalhos da sua vida musical.
Após o 25 de Abril José Afonso teve uma intervenção directa em muitos dos acontecimentos, embora nunca se tenha envolvido com nenhum partido político em concreto, mas sempre numa perspectiva de esquerda, muitas vezes no âmbito da chamada “esquerda revolucionária”, na qual se inseriram grupos como a LUAR. Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial, tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. A sua doença, diagnosticada em 1982, agrava-se. Em 1985 publica “Galinhas do Mato”, o seu último trabalho. Dois anos depois Zeca Afonso morre. Mais de 30 mil pessoas marcam presença no funeral… mas o nosso país ainda não foi capaz de prestar uma verdadeira homenagem a este poeta-cantor que, queira-se ou não, estará sempre presente enquanto falarmos de LIBERDADE E DEMOCRACIA.
Discografia
De seguida deixo aqui algumas notas sobre a vasta discografia de José Afonso. Refiro apenas aos trabalhos de maior envergadura, os LP’s, como então se chamavam, produzidos em vinil, uma vez que ainda não havia CD´s, nem DVD´s! Mas hoje está quase tudo editado em CD e a preços acessíveis, que podem ser encomendados, por exemplo, na Associação José Afonso (http://www.aja.pt/). Existem ainda outros espaços da Net onde se encontram vários textos sobre a discografia, a bibliografia e até os textos dos temas. Basta escrever José Afonso em qualquer motor de busca.
A primeira gravação de José Afonso data de 1953 e a última de 1985 - 32 anos de carreira discográfica. Deve referir-se que as edições são em tal número (originais, segundas edições e mais, singles, EP’s, LP´s, CD’s) que se pode dizer não existir ainda uma discografia isenta de lapsos, ou com datas incorrectas. Uma observação mais atenta a muitos destes textos permite imediatamente encontrar algumas contradições entre eles. Este primeiro trabalho que apresentamos, “Os Vampiros”, é disso um bom exemplo. Não consegui acertar com a data de edição (a versão que tenho é em CD, é de 1987),mas trata-se de uma colectânea. A data correcta será 1963. A referência a este pormenor deve-se apenas ao facto de neste assunto estarem incluídos dois dos temas mais emblemáticos da crítica social de José Afonso (o próprio não terá imaginado na altura a repercussão que teriam)ao ponto de se transformarem em icon’s da sua obra: “Vampiros” e “Menino do Bairro Negro”, temas editados com o título “Baladas de Coimbra” num EP de 1963. Rui Pato, ainda jovem, mas que viria a desenvolver uma grande colaboração com José Afonso, acompanhava à viola.
OS VAMPIROS (1963)
Temas do álbum.
01. Os Vampiros; 02. Menino d’Oiro; 03. Canção do vai...e vem; 04. Senhor poeta; 05. Tenho barcos, tenho remos; 06. Vira de Coimbra; 07. Menino do bairro negro; 08. As pombas; 09. No lago de breu; 10. Canção longe; 11. Amor de estudante; 12. Balada de Outono.
A partir daqui seguirei uma ordem cronológica das edições. As referências dizem apenas respeito aos trabalhos originais e de longa duração (LP’s).
BALADAS E CANÇÕES (1967)
Contudo, só em 1967 surge aquele que é considerado o primeiro trabalho em LP (longa duração) oficial de José Afonso. Acompanhado à viola por Rui Pato, o cantor é identificado, na primeira edição do álbum, ainda como Dr. José Afonso.
Temas do álbum.
01. Canção longe; 02. Os Bravos; 03. Balada Aleixo; 04. Balada do Outono; 05. Trovas antigas; 06. Na fonte está Lianor; 07. Minha Mãe; 08. Altos castelos; 09. O pastor de Bensafrim; 10. Canto da Primavera; 11. Elegia; 12. Ronda dos paisanos.
CANTARES DO ANDARILHO (1968)
Deste trabalho, “Vejam bem” foi sem dúvida o tema que passou à posteridade. Mas convém não esquecer igualmente temas excepcionais como “Canção de embalar” (um tema com espaço especial no nosso Cancioneiro Popular) “O cavaleiro e o anjo” e “Chamaram-me cigano”, todos eles com letra e música de José Afonso.
Temas do álbum.
01. Natal dos simples; 02. Balada do sino; 03. Resineiro Engraçado; 04. Canção de embalar; 05. O Cavaleiro e o Anjo; 06. Saudadinha; 07. Tecto na Montanha; 08. Endechas a Bárbara Escrava; 09. Chamaram-me cigano; 10. Senhora do Almortão; 11. Vejam bem; 12. Cantares do Andarilho.
CONTOS VELHOS RUMOS NOVOS (1969)
Este álbum tem três temas marcantes: “Qualquer dia” (letra de Miguel Bernardes) “Era de noite e levaram” (letra de Luís Andrade, alusiva às detenções que a PIDE fazia) e “A cidade” (letra de José Carlos Ary dos Santos).
Temas do álbum.
01. Bailia; 02. Oh! Que Calma Vai Caindo; 03. S. Macaio; 04. Qualquer Dia; 05. Vai, Maria Vai; 06. Deus Te Salve, Rosa; 07. Lá Vai Jeremias; 08. No Vale Da Fuenteovejuna; 09. Era De Noite E Levaram; 10. Já O Tempo Se Habitua; 11. A Cidade.
TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM (1970)
Este trabalho é todo ele memorável, desde logo pelo aparecimento de mais uma referência do poeta, cantor e Homem de solidariedades: “Traz outro Amigo Também”, para além de ter contado com uma magistral interpretação vocal, transformou-se também numa mensagem poderosa na luta contra a opressão. Mas não podemos esquecer temas que tanto se difundiram pelo país, desconhecendo muito gente (será que todos sabem já…) que eram de José Afonso: “Maria Faia”, de cariz popular e “Verdes são os campos”, da lírica de Luís de Camões, são apenas dois exemplos.
Temas do álbum.
01. Traz outro Amigo também; 02. Maria Faia; 03. Canto moço; 04. Epígrafe para a arte de furtar; 05. Moda de Entrudo; 06. Os eunucos "No Reino da Etiópia"; 07. Avenida de Angola; 08. Canção do desterro-"Emigrantes"; 09. Verdes são os campos; 10. Carta a Miguel Djéje; 11. Cantiga do monte.
CANTIGAS DO MAIO (1971)
Temas do álbum
01. Senhor Arcanjo; 02. Cantigas do Maio; 03. Milho Verde; 04. Cantar Alentejano; 05. Grândola Vila Morena; 06. Maio maduro Maio; 07. Mulher da erva; 08. Ronda dos mafarricos; 09. Coro da Primavera.
EU VOU SER COMO A TOUPEIRA (1972)
Para além deste tema (sobre Dias Coelho penso falar um dia destes, pois foi colega de uma pessoa de Alfândega da Fé) ficou mais conhecido o tema “No comboio descendente” (texto de Fernando Pessoa). Temas do álbum,
01. A morte saiu à rua; 02. Fui à beira do mar; 03. Sete fadas me fadaram; 04. Ó minha amora madura; 05. O avô cavernoso; 06. Ó Ti Alves; 07. No comboio descendente; 08. Eu vou ser como a toupeira; 09. É para Urga; 10. Por trás daquela janela.
VENHAM MAIS CINCO (1973)
A par do tema que dá o título ao álbum, “Venham mais cinco”, convém não esquecer a importância de “A formiga no carreiro”, sendo estes seguramente os que ficaram mais conhecidos.
Temas do álbum.
01. Rio largo de profundis; 02. Era um redondo vocábulo; 03. Nefretite não tinha papeira; 04. Adeus ó serra da lapa; 05. Venham mais cinco; 06. A formiga no carreiro; 07. Que amor não me engana; 08. Paz poeta e pombas; 09. Se voaras mais ao perto; 10. Gastão era perfeito.
CORO DOS TRIBUNAIS (1975)
Suponho que pelo facto de ter saído já depois do 25 de Abril muitos pensaram que os temas eram dessa período, nomeadamente “O que faz falta”, mas a verdade é que são todos anteriores. O trabalho foi gravado no final de 1974, em Londres, com Adriano Correia de Oliveira, Fausto (responsável pelos arranjos e pela direcção musical), Vitorino, Carlos Moniz, José Niza, Michel Delaporte (francês) Yório Gonçalves (brasileiro).
Temas do álbum.
01. Coro dos Tribunais; 02. O Homem voltou; 03. Ailé!Ailé!; 04. Não seremos pais incógnitos; 05. O que faz falta; 06. Lá no Xepangara; 07. Eu marchava de dia e de noite; 08. Tenho um primo convexo; 09. Só ouve o brado da terra; 10. A presença das formigas; 11. Coro dos Tribunais "Final"
COM AS MINHAS TAMANQUINHAS (1976)
Neste trabalho regista-se pela primeira vez a colaboração de Júlio Pereira. Fausto voltou a dar o seu contributo na direcção e arranjos, mas é o próprio José Afonso que assina a orientação musical, o que, de resto, fez na maior parte da sua obra. Este álbum tem ainda a colaboração de Quim Barreiros. Destacam-se os temas “Teresa Torga” e “Em terras de Trás-os-Montes”.
Temas do álbum.
01. Os fantoches de Kissinger; 02. Teresa Torga; 03. Os índios da Meia-Praia; 04. O homem da gaita; 05. O dia da unidade; 06. Com as minhas tamanquinhas; 07. Chula da Póvoa; 08. Como se faz um canalha; 09. Em terras de Trás-os-Montes; 10. Alípio de Freitas.
ENQUANTO HÁ FORÇA (1978)
A ficha técnica deste trabalho merece uma referência especial, pois volta a juntar velhos amigos num projecto de José Afonso, entre os quais Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Michel Delaporte, Rão Kyao, Sérgio Godinho, Pedro Caldeira Cabral e Carlos Zíngaro. O destaque vai para o tema que dá o nome ao álbum, “Enquanto à força”, não esquecendo “Tinha uma sala mal iluminada” (um tema que ainda faz uma reflexão sobre aspectos do pré-25 de Abril, embora seja um apelo para a actualidade de então) e “Ali está o rio”.
Temas do álbum.
01. Enquanto há força; 02. Tinha uma sala mal iluminada; 03. Um homem novo veio da mata; 04. Ali está o rio; 05. Arcebispíada; 06. Barracas ocupação; 07. Eu, o Povo; 08. A acupunctura em Odemira; 09. Viva o Poder Popular.
FURA FURA (1979)
Temas do álbum.
01. Quanto é Doce; 02. As sete mulheres do Minho; 03. O Cabral fugiu para Espanha; 04. De quem foi a traição; 05. Quem diz que é pela Rainha; 06. Na catedral de Lisboa; 07. Achégate a mim, Maruxa; 08. Senhora que o velho; 09. De sal de linguagem feita; 10. Não é meu bem; 11. De não saber o que me espera; 12. Fura Fura.
COMO SE FORA SEU FILHO (1983)
O álbum abre com “Utopia” e percebemos logo que estamos perante um tipo de trabalho diferente. Já não existe aqui a melodia de intervenção das décadas de sessenta e setenta, mas a reflexão sobre o rumo de um país à beira de esquecer o 25 de Abril. A musicalidade, em alguns temas, também recebe novos elementos, que voltarão a estar presentes no trabalho seguinte, que também foi o último original.
Temas do álbum.
01. Papuça; 02. Utopia; 03. A Nau de António Faria; 04. Canção da Paciência; 05. O País Vai de Carrinho; 06. O Canarinho; 07. Eu Dizia; 08. Canção do Medo; 09. Verdade e Mentira; 10. Altos altentes; 11. À proa.
GALINHAS DO MATO (1985)
Temas do álbum.
01. Agora 02. Tu Gitana 03. Moda do Entrudo 04. Tarkovsky 05. Escandinávia Bar-Fuzeta 06. Década de Salomé 07. Benditos 08. Galinhas do Mato 09. À Proa 10. Alegria da Criação
Existem muitas fontes de pesquisa sobre José Afonso. Para a elaboração deste pequeno trabalho utilizei as que se seguem: http://www.aja.pt/biografia.htm http://www.attambur.com/Noticias/20071t/joseAfonsoBiografia.htm http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Afonso http://alfarrabio.di.uminho.pt/zeca/bgraf/cronologia.html Nota: Este texto foi publicado no Blog, tendo agora sido actualizado. F. Lopes, 24 de Abril de 2009 |