|
|
ANTÓNIO JACINTO DO AMARAL MARTINS
Alfândega da Fé nas raízes, África no destino.
Naquela ocasião, para além de referir que o poeta assinava quase tudo como “Ajam”, avancei igualmente com uma hipótese explicativa da origem do pseudónimo “Orlando Távora”, que utilizou como contista. Hoje retomo a ideia daquele texto, com algumas correcções, um ou outro pormenor novo e a transcrição de vários poemas que então apenas citei e outros que me pareceram oportunos, mas com o mesmo objectivo de ligar este nome grande da literatura angolana a Alfândega da Fé. Mantenho os três poemas então publicados e continuo a achar que dois deles, “Um Perfil” e “Recordando”, são inéditos. O terceiro poema que então publiquei, “C. Bom”, encontrava-se numa folha dactilografada pelo próprio autor e foi publicado no livro “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” com o título “Paisagem em Frente”. Acresce referir que este poema apresenta a mesma data de “Oração”, também publicado naquela obra e que foi, como outros, escrito em memória da Mãe do autor, entretanto falecida. António Jacinto afirmou várias vezes que a Mãe teve uma influência decisiva no seu gosto pela escrita, pela leitura e pelas histórias. Mas no poema “Oração” ele revela claramente que a Mãe teve igualmente influência no desenvolvimento de outros valores que haveriam de definir o seu percurso de vida, o mesmo percurso que a levaria a um grande desgosto e muitas lágrimas derramadas, como o próprio poeta refere. Os pais de António Jacinto faleceram na década de sessenta e estão sepultados na terra natal, Alfândega da Fé. Na edição de “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” Campo das Letras, 1ª Edição, Março de 2000 (com ilustrações do nosso conhecido Mestre José Rodrigues) foi inserido uma pequena carta de António Cardoso, redigida em 1982, na qual dizia a António Jacinto: “Tens de publicar os teus inéditos: não é justo não os podermos conhecer (…)”. A publicação destes dois textos inéditos foi, por isso, um modesto contributo para o conhecimento da obra poética inédita de António Jacinto, justificando-se agora uma divulgação mais ampla através deste blog.
António Jacinto do Amaral Martins nasceu em Luanda (“embora preferisse ter nascido no Golungo Alto”, como diz Ana Paula Tavares, em “Cinquenta Anos de Literatura Angolana”) em 28 de Setembro de 1924, filho de pais Alfandeguenses, José Trindade Martins (conhecido pelos conterrâneos pela alcunha de “trinta e três”) e de Maria Cecília Amaral Martins, que como muitos outros filhos da terra procuraram em Angola uma vida mais próspera. O Pai, “Tio Zé”, como lhe chamavam os familiares mais novos, terá chegado a Angola por volta de 1912, numa época em que o regime republicano incentivava a colonização de África. Uns anos mais tarde veio a Portugal para casar e regressou novamente, já com a esposa, a “Tia Micas”, como era conhecida também pelos familiares. Viveram sobretudo no Golungo Alto (província do Cuanza Norte) e fixaram-se definitivamente em Luanda por volta de 1945. Tanto quanto consegui apurar, António Jacinto esteve apenas uma vez em Alfândega da Fé ainda em criança e durante muito pouco tempo. Antes de irem para Angola, os pais viveram na casa que era já dos avós e que no passado fora a “Casa dos Távoras” em Alfândega da Fé, hoje completamente descaracterizada da sua arquitectura original. Parece-me perfeitamente aceitável dizer que o pseudónimo de “Orlando Távora” que António Jacinto utilizou foi escolhido como “lembrança” destas raízes e da sua curta passagem pela terra dos pais. O poeta foi o terceiro filho do casal Amaral Martins. Por Angola nasceram também os irmãos mais velhos, Humberto (falecido) e Natália (que ainda reside em Luanda) e o mais novo, Reinaldo Martins, que faleceu jovem e antes do próprio António Jacinto. Conclui os estudos liceais em Luanda, no Liceu Salvador Correia de Sá, não tendo prosseguido os estudos em Lisboa, como era seu desejo. Se isso tivesse acontecido o curso seria engenharia de minas, como nos confidenciou a prima Maria Cecília. Pelos vistos, ainda chegou a despedir-se dos amigos para vir estudar para Lisboa, mas o pai acabou por mudar de ideias e o jovem António Jacinto acabaria por se empregar como funcionário de escritório. Cedo se destacou como poeta e contista da geração Mensagem. Um dos textos já apresentado em 1997, “Um Perfil”, data de 1945, tinha então vinte anos. O estilo ainda não é o que viria a caracterizar a sua poesia, mesmo a lírica, mas nota-se já o traço crítico e até irónico que encontramos em alguns dos seus textos posteriores e mais conhecidos. Embora filho de colonos, António Jacinto teve um percurso de vida essencialmente marcado pelo envolvimento político contra a colonização e o regime fascista que perdurava em Portugal. Em consequência disso foi preso a primeira vez em 1959 e novamente em 1961, sendo desta vez condenado a 14 anos de cadeia (o julgamento aconteceu apenas em 1963) pena que iria cumprir no tristemente célebre campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Em 1972 foi libertado, mas com residência fixa em Lisboa. No ano seguinte fugiu para Argel, indo depois integrar a guerrilha do MPLA. Foi um destacado dirigente daquele movimento de libertação e após a independência de Angola foi Ministro da Cultura, de 1975 a 1978. Morreu em 23 de Junho de 1991 em Lisboa e está sepultado em Luanda. A sua obra está publicada nos seguintes livros: “Poemas”, 1961, “Vôvô Bartolomeu”, 1979, “Poemas”, 1982, “Em Kilunje do Golungo”, 1984, “Sobreviver em Tarrafal de Santiago”, 1985, “Prometeu”, 1987, “Fábulas de Sanji”, 1988.
A CASA ONDE VIVERAM OS PAIS DE ANTÓNIO JACINTO, EM ALFÂNDEGA DA FÉ
Actualmente existem outras alterações e da construção original resta apenas a parte respeitante à entrada (da capela?) e à primeira janela de guilhotina.
Poemas publicados em 1997, no Boletim Municipal da Câmara Municipal de Alfândega da Fé
UM PERFIL em duas décimas
OLHOS NEGROS, PEQUENINA BASTOS CABELOS DOIRADOS PENA É MINHA MENINA SEREM OXIGENADOS
É linda, muito ladina, Elegante, vaporosa, Redondinha, bem jeitosa, OLHOS NEGROS, PEQUENINA, Pequenino pé, traquina, Com pulsos bem modelados, Formosos lábios pintados, Perna bem feita, catita, Face redonda, bonita, BASTOS CABELOS DOIRADOS.
Tangendo a lira divina, Gloso o mote do Fresquinho: Mas se me falta o jeitinho PENA É MINHA MENINA Pois sendo como a bonina Queres versos inspirados E os meus serão rasgados E para sempre desfeitos Por teus cabelos bem feitos SEREM OXIGENADOS.
(Luanda, Junho de 1945)
RECORDANDO
Oh! Meu Golungo em que a floresta assume Graças infinitas; doce perfume Que o Zenza lendário vem beijando Recordando fatal amor tão nefando!
Zenza caprichoso, me vens contando, Quando sereno te estava fitando, Uma história de louco ciúme, Numa noite de vibrante ciúme.
Em que Ela, embalada, terna e amante Em meus braços, chorosa e anelante Me jurava amor eterno. Tão querida!
(Sem indicação de local e data)
Nota: O manuscrito, em papel quadriculado fino e escrito a verde, provavelmente parte de uma carta, contém a seguinte dedicatória: “dedicado à terra da Natália e do Reinaldo”, dois irmãos do poeta.
C. Bom
Paisagem em frente No espelho do horizonte Imagem é do fogo a Ilha de fronte.
E o Mar! O Mar de envolver volveres de solidão? Obsessivo O desejo de partir E esta maldição Imular De nunca chegar E de jamais voltar!
(CT. Chão Bom, 29/3/1967)
Nota: Este poema foi publicado, como já referi, em “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” Na versão do livro o primeiro verso passa a título, “Paisagem em Frente”, começando no verso seguinte. O nono verso do texto publicado contém a palavra “Imular” mas na versão do livro foi substituída por “Insular”.
OUTROS POEMAS
Carta dum contratado
Eu queria escrever-te uma carta amor, uma carta que dissesse deste anseio de te ver deste receio de te perder deste mais que bem querer que sinto deste mal indefinido que me persegue desta saudade a que vivo todo entregue...
Eu queria escrever-te uma carta amor, uma carta de confidências íntimas, uma carta de lembranças de ti, de ti dos teus lábios vermelhos como tacula dos teus cabelos negros como dilôa dos teus olhos doces como macongue dos teus seios duros como maboque do teu andar de onça e dos teus carinhos que maiores não encontrei por aí...
Eu queria escrever-te uma carta amor, que recordasse nossos dias na capôpa nossas noites perdidas no capim que recordasse a sombra que nos caía dos jambos o luar que se coava das palmeiras sem fim que recordasse a loucura da nossa paixão e a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta amor, que a não lesses sem suspirar que a escondesses de papai Bombo que a sonegasses a mamãe Kiesa que a relesses sem a frieza do esquecimento uma carta que em todo o Kilombo outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta amor, uma carta que ta levasse o vento que passa uma carta que os cajus e cafeeiros que as hienas e palancas que os jacarés e bagres pudessem entender para que se o vento a perdesse no caminho os bichos e plantas compadecidos de nosso pungente sofrer de canto em canto de lamento em lamento de farfalhar em farfalhar te levassem puras e quentes as palavras ardentes as palavras magoadas da minha carta que eu queria escrever-te amor...
Eu queria escrever-te uma carta...
Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender por que é, por que é, por que é, meu bem que tu não sabes ler e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!
(Poemas) Monangamba
Naquela roça grande não tem chuva é o suor do meu rosto que rega as plantações:
Naquela roca grande tem café maduro e aquele vermelho-cereja são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado pisado, torturado, vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam, aos regatos de alegre serpentear e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai à tonga? Quem traz pela estrada longa a tipóia ou o cacho de dendém? Quem capina e em paga recebe desdém fuba podre, peixe podre, panos ruins, cinquenta angolares "porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer e os laranjais florescer - Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar maquinas, carros, senhoras e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar, ter barriga grande - ter dinheiro? - Quem?
E as aves que cantam, os regatos de alegre serpentear e o vento forte do sertão responderão: - "Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras Deixem-me beber maruvo, maruvo e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- "Monangambééé..."
(Poemas) Poema da alienação
Não é este ainda o meu poema o poema da minha alma e do meu sangue não Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema o grande poema que sinto já circular em mim
O meu poema anda por aí vadio no mato ou na cidade na voz do vento no marulhar do mar no Gesto e no Ser
O meu poema anda por aí fora envolto em panos garridos vendendo-se vendendo
“ma limonje ma limonjééé”
O meu poema corre nas ruas com um quibalo podre à cabeça oferecendo-se oferecendo
“carapau sardinha matona ji ferrera ji ferrerééé...”
O meu poema calcorreia ruas “olha a probíncia” “diááário” e nenhum jornal traz ainda o meu poema
O meu poema entra nos cafés “amanhã anda a roda amanhã anda a roda” e a roda do meu poema gira que gira volta que volta nunca muda
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
O meu poema vem do Musseque ao sábado traz a roupa à segunda leva a roupa ao sábado entrega a roupa e entrega-se à segunda entrega-se e leva a roupa
O meu poema está na aflição da filha da lavadeira esquiva no quarto fechado do patrão nuinho a passear a fazer apetite a querer violar
O meu poema é quitata no Musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe paga dinheiro vem dormir comigo”
O meu poema joga a bola despreocupado no grupo onde todo o mundo é criado e grita
“obeçaite golo golo”
O meu poema é contratado anda nos cafezais a trabalhar o contrato é um fardo que custa a carregar
“monangambééé”
O meu poema anda descalço na rua
O meu poema carrega sacos no porto enche porões esvazia porões e arranja força cantando
“tué tué tué trr arrimbuim puim puim”
O meu poema vai nas corda encontrou sipaio tinha imposto, o patrão esqueceu assinar o cartão vai na estrada cabelo cortado
“cabeça rapada galinha assada ó Zé”
picareta que pesa chicote que canta
O meu poema anda na praça trabalha na cozinha vai à oficina enche a taberna e a cadeia é pobre roto e sujo vive na noite da ignorância o meu poema nada sabe de si nem sabe pedi O meu poema foi feito para se dar para se entregar sem nada exigir
Mas o meu poema não é fatalista o meu poema é um poema que já quer e já sabe o meu poema sou eu-branco montado em mim-preto a cavalgar pela vida.
(Poemas)
Castigo pro comboio malandro
passa passa sempre com a força dele ué ué ué hii hii hii te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem
o comboio malandro passa
Nas janelas muita gente ai bô viaje adeujo homéé n'ganas bonitas quitandeiras de lenço encarnado levam cana no Luanda pra vender
hii hii hii aquele vagon de grades tem bois muú muú muú
tem outro igual como este dos bois leva gente, muita gente como eu cheio de poeira gente triste como os bois gente que vai no contrato
Tem bois que morre no viaje mas o preto não morre canta como é criança "Mulonde iá késsua uádibalé uádibalé uádibalé..." Esse comboio malandro sozinho na estrada de ferro passa passa sem respeito ué ué ué com muito fumo na trás hii hii hii te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Comboio malandro O fogo que sai no corpo dele Vai no capim e queima Vai nas casas dos pretos e queima Esse comboio malandro Já queimou o meu milho
Se na lavra do milho tem pacacas Eu faço armadilhas no chão, Se na lavra tem kiombos Eu tiro a espingarda de kimbundo E mato neles Mas se vai lá fogo do malandro - Deixa!- Ué ué ué Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem Só fica fumo, Muito fumo mesmo.
Mas espera só Quando esse comboio malandro descarrilar E os brancos chamar os pretos pra empurrar Eu vou Mas não empurro - Nem com chicote - Finjo só que faço forca Aka!
Comboio malandro Você vai ver só o castigo Vai dormir mesmo no meio do caminho.
(Poemas)
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
Um retângulo oco na parede caiada Mãe
Três barras de ferro horizontais Mãe Na vertical oito varões Mãe Ao todo vinte e quatro quadrados Mãe No aro exterior Dois caixilhos Mãe somam doze retângulos de vidro Mãe As barras e os varões nos vidros projetam sombras nos vidros feitos espelhos Mãe Lá fora é noite Mãe O Campo a povoação a ilha o arquipélago o mundo que não se vê Mãe Dum lado e doutro, a Morte, Mãe A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe Cale-se o que não se vê Mãe e veja-se o que se sente Mãe que o poema está no que e como se vê, Mãe Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
Mãe aqui não há poesia É triste, Mãe Já não haver poesia Mãe, não há poesia, não há Mãe
Num cavalo de nuvens brancas o luar incendeia carícias e vem, por sobre meu rosto magro deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
(Sobreviver em Tarrafal de Santiago)
Oração
Mãe Agora que tu partiste que será do teu menino? Quem rirá da minhas partidas e travessuras? Quem terá indulgências aos erros meus e sentirá as minhas amarguras? Quem me contará histórias de encantar das fadas e do fantástico -ainda preciso delas, Mãe- quem me ensinará as primeiras letras da Cartilha Maternal me falará das estrelas da África da Europa do Atlântico do Universo me ensinará amor pelas andorinhas e pelos humildes e me ensinará humanidade? Quem? Agora que te foste embora (quantas lágrimas por mim choraste, e choraste por ti à partida?) onde um regaço para pousar minha cabeça de cansaços? Mãe agora que partiste o teu menino está perdido na floresta de gigantes maus escuta Mãe o teu menino será forte como quiseste («come Antoninho» «come Antoninho») E saberá pelas estrelas Encontrar o caminho da nossa casa Mãe. Agora que tu partiste Ainda estamos sempre juntos (cordão umbilical inquebrável nos ligou) ainda estamos juntos a cada raio de sol a cada revérbero de Lua no mar a cada murmuro lamento da floresta no Golungo -sempre juntos Mãe.
(Sobreviver em Tarrafal de Santiago)
F. Lopes, 26 de Fevereiro de 2007 |